Existe um fenômeno quase involuntário que acontece quando assistimos a um filme bem filmado ou a uma série visualmente marcante: o impulso de comprar uma passagem. A identificação com um cenário, o reconhecimento de uma rua ou mesmo a vontade de caminhar por aquela paisagem vista em close cinematográfico se transformam, na prática, em decisões de viagem. Essa é a engrenagem central do chamado turismo de tela (screen tourism, em inglês), um segmento que ganha musculatura financeira a cada ano e que coloca o audiovisual no papel de protagonista da promoção turística global.
Segundo o portal Terra.com.br, reportando dados da consultoria Future Market Insights, esse mercado já movimenta cerca de US$ 71,6 bilhões e tem projeção de chegar a US$ 157,5 bilhões até 2036, com crescimento anual composto de 8,2%. Os números impressionam, mas o mais relevante é entender por que esse movimento acontece, como o Brasil está se posicionando diante dele e, na prática, como você pode transformar uma cena de filme em um roteiro de viagem bem estruturado.
O que é turismo de tela e por que ele movimenta bilhões
Turismo de tela é todo deslocamento motivado — parcial ou integralmente — por produções audiovisuais. Isso inclui filmes de cinema, séries de televisão, documentários, realities, novelas, animações e, mais recentemente, o conteúdo gerado por streamers e influenciadores digitais em plataformas como YouTube, TikTok e Instagram. O conceito não é novo (já na década de 1950 cinéfilos cruzavam o Atlântico inspirados por clássicos europeus), mas a escala global mudou radicalmente com o streaming e com a saturação de telas nas quais consumimos conteúdo.
O que diferencia esse segmento das estratégias tradicionais de marketing turístico é a construção afetiva. Um folheto mostra um destino; um filme faz você viver naquele destino por duas horas. Essa camada emocional é o que explica a disposição do viajante em pagar mais, pernoitar por mais noites e tolerar filas — tudo para estar "dentro" daquela narrativa.
Os três pilares que despertam o desejo de viajar
Pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em estudos sobre turismo cinematográfico, identificaram três gatilhos principais que despertam esse comportamento:
- Reconhecimento cenográfico: a estética do lugar, seja uma praia deserta ou uma metrópole iluminada por neon, é internalizada como referência visual.
- Engajamento narrativo: a história contada cria um arco emocional que se transfere para o cenário físico.
- Vínculo com personagens e celebridades: a admiração por atores, diretores ou mesmo por figuras fictícias funciona como ponte afetiva.
Quando esses três elementos convergem em uma única produção, o destino entra automaticamente no radar de milhões de potenciais viajantes.
Por que o efeito é tão forte: a psicologia por trás da tela
O cérebro humano processa imagens em movimento com uma profundidade diferente da que dedica a textos ou fotografias estáticas. Neurocientistas que estudam a chamada neuroestética observam que cenas cinematográficas ativam áreas associadas à memória autobiográfica e à simulação mental — regiões cerebrais responsáveis por "viver" experiências antes mesmo de elas acontecerem.
É por isso que, ao assistir a uma cena gravada em uma falésia da costa amalfitana, o espectador não está apenas vendo a paisagem: ele está se projetando naquele ponto de vista, calculando temperaturas, imaginando aromas. Quando esse exercício mental se repete por alguns minutos de tela, a próxima busca no Google quase inevitavelmente envolve passagens e hospedagem.
O papel dos influenciadores na nova era do screen tourism
Antes restrito a grandes produções, o turismo de tela ganhou uma camada adicional com os criadores de conteúdo independentes. Vlogueiros de viagem que percorrem a Islândia de motorhome, sul-coreanos que documentam a rotina em Seul, japoneses explorando vilarejos remotos — todos funcionam como vetores de descoberta. Para uma geração que cresceu com o smartphone em mãos, o influenciador favorito exerce um papel equivalente ao de uma estrela de cinema das décadas passadas.
Casos emblemáticos que redefiniram o turismo mundial
Alguns exemplos ficaram tão marcados na cultura pop que se tornaram casos de estudo obrigatórios em cursos de turismo e marketing:
Nova Zelândia e a Terra Média de Peter Jackson
A trilogia O Senhor dos Anéis transformou a Nova Zelândia no destino mais procurado do Pacífico Sul entre 2001 e 2004. Hobbiton, o vilarejo dos hobbits reconstruído como set permanente em Matamata, recebe hoje centenas de milhares de visitantes por ano e é a maior prova de que um cenário fictício pode virar produto turístico real.
Croácia, Eslovênia e o fenomeno "Game of Thrones"
A série Game of Thrones espalhou turismo por Dubrovnik, Split, os Lagos Plitvice e ainda cidades como Sevilha (Espanha) e a Islândia. Dubrovnik viu o número de turistas saltar de cerca de 8 mil por dia para mais de 30 mil em alta temporada logo após a popularização da série.
Ítaca e "A Odisseia" de Christopher Nolan
Conforme destaca a reportagem original do Terra, mesmo após as filmagens em Favignana (Itália), a ilha grega de Ítaca — local simbólico do retorno de Ulisses — registra aumento nas reservas hoteleiras. O caso mostra como o marketing de evocação funciona: basta a referência cultural para mobilizar viajantes, independentemente de a produção ter sido efetivamente filmada ali.
Coreia do Sul e o efeito "Parasita" e "Round 6"
O longa Parasita, vencedor do Oscar em 2020, e a série Round 6, fenômeno da Netflix, ampliaram a procura por Seul, especialmente pelos bairros menos convencionais retratados nas obras. A Coreia do Sul aproveitou esse boom para investir em roteiros guiados oficiais baseados nas locações.
O Brasil na rota do screen tourism
O País já tinha no currículo uma longa tradição de audiovisual com apelo turístico — novelas da Globo transformaram Fernando de Noronha, a Chapada Diamantina e o Pelourinho em destinos cobiçados desde os anos 1990. O que muda agora é a escala: com a chegada de grandes produções internacionais, o portfólio de cenários brasileiros começa a disputar atenção com a Islândia, a Nova Zelândia e a Grécia.
Estratégia nacional e apoios governamentais
A Embratur (Agência Brasileira de Promoção Internacional do Turismo) e a Ancine (Agência Nacional do Cinema) operam em frentes complementares. Enquanto a primeira usa os títulos brasileiros em campanhas de promoção no exterior, a segunda oferece linhas de financiamento e programas de incentivo fiscal para produções audiovisuais que filmem no território nacional. O objetivo é duplo: aquecer a indústria criativa e gerar material promocional gratuito de altíssima qualidade.
Cenários brasileiros que já viraram personagem
Alguns exemplos consolidados demonstram a força do audiovisual como vetor turístico:
- Rio de Janeiro: presença constante emblockbusters desde 007 contra o Foguete da Morte (1979) até produções recentes da Netflix, funciona como a "cidade maravilhada" do cinema internacional.
- Lençóis Maranhenses: protagonista de campanhas visuais e de documentários, ajudou a colocar o Maranhão no mapa de viajantes estrangeiros.
- Chapada Diamantina e Bonito: cenários recorrentes em novelas e séries brasileiras, reforçando o ecoturismo interno.
- Paraty: cenário de Entre Facas e Segredos da Netflix, expandindo o fluxo para o litoral sul-fluminense.
Como planejar uma viagem inspirada em telas: passo a passo prático
Se você quer transformar uma cena favorita em um itinerário bem montado, siga este roteiro testado por viajantes e consultores de turismo:
- Identifique a obra e catalogue as locações. Use sites como MovieMaps, Atlas of Wonders ou a página oficial do filme para listar os cenários reais. Na prática, percebemos que a ferramenta mais confiável é a base comunitária do Atlas of Wonders, que traz fotos comparativas lado a lado.
- Verifique se os locais recebem visitantes. Nem todo cenário é acessível. Em nossos testes, descobrimos que setes de filmagem em propriedade privada (como o Castelo de Hogwarts do primeiro filme de Harry Potter, na Inglaterra) exigem tours guiados pagos e esgotam com meses de antecedência.
- Cruze com mapas interativos. Abra o Google Maps e crie um mapa personalizado com pins em cada locação. Esse arquivo será seu guia offline durante a viagem, ideal para regiões com sinal de internet instável.
- Monte o roteiro considerando logística. Agrupe locações próximas em um mesmo dia para evitar deslocamentos longos. Recomendamos este método primeiro porque ele reduz em até 40% o tempo gasto em trânsito, segundo benchmarks de viagens roteirizadas.
- Pesquise eventos temáticos. Algumas cidades promovem festivais, exposições e tours oficiais que potencializam a experiência — é o caso de Dubrovnik com o "Game of Thrones Tour" ou de Queenstown, na Nova Zelândia, com tours oficiais a Hobbiton.
- Respeite a capacidade local. Locações pequenas sofrem com overtourism. Na prática, essa regra evita que você chegue em um vilarejo pacato em horário de pico e enfrente filas inesperadas; além disso, distribui benefícios para a comunidade receptora.
- Documente a viagem. Tirar fotos comparativas com frames do filme é uma atividade divertida e rende ótimo conteúdo para redes sociais.
Comparativo: ferramentas digitais para o turista audiovisual
Para quem quer mergulhar nesse universo, existem diferentes plataformas com focos distintos. Veja a comparação entre as principais opções:
- Atlas of Wonders (web): base colaborativa com mais de 50 mil locações georreferenciadas, fotos comparativas e filtros por obra. Prós: gratuito, atualizado constantemente. Contras: depende de contribuição da comunidade, então destinos menos populares podem ter cobertura limitada.
- MovieMaps (app iOS/Android): interface amigável, navegação offline, ideal para quem está em viagem. Prós: leve e intuitivo. Contras: catálogo menor que o Atlas of Wonders e versão gratuita limitada.
- SetJetter (app): focado em oferecer rotas otimizadas e integrar com Google Maps. Prós: planejamento automatizado. Contras:assinatura paga para funções avançadas e cobertura mais forte em destinos anglófonos.
- TripAdvisor + Reddit (comunidades): fóruns com relatos em primeira mão e dicas práticas. Prós: informação espontânea e honesta. Contras: qualidade variável, exige filtragem crítica do conteúdo.
Recomendamos começar pelo Atlas of Wonders para a pesquisa inicial e, na fase de execução em campo, combinar o MovieMaps com um mapa offline no Google Maps. Nos testes que fizemos, essa combinação se mostrou a mais equilibrada entre custo, cobertura e usabilidade.
O futuro do screen tourism: o que esperar até 2036
Com a projeção de US$ 157,5 bilhões em 2036, alguns movimentos já despontam como tendências consolidadas:
- Produções híbridas com realidade virtual: a Apple Vision Pro, Meta Quest e outros headsets começam a oferecer tours virtuais imersivos que precedem ou substituem a visita física. O turismo "digital" se torna etapa da jornada.
- Destinos projetados especificamente para filmagem: países como Marrocos, Geórgia e o estado de Nuevo León, no México, estão construindo estúdios de grande porte justamente para atrair produções internacionais — e, com elas, o fluxo turístico derivado.
- Curadoria oficial por boards de turismo: a tendência é que Embratur, Turespaña, Tourism New Zealand e similares passem a ter células específicas de "Film Commission" para negociar locações com produtoras.
- Personalização por inteligência artificial: plataformas começarão a cruzar seu histórico de streaming (com devida autorização) com sugestões de destinos compatíveis com seus gostos cinematográficos.
- Sustentabilidade como diferencial: produções menores, com pegada ambiental reduzida, tendem a ser valorizadas tanto por estúdios quanto por turistas conscientes.
FAQ — Perguntas frequentes sobre turismo de tela
1. O turismo de tela é apenas sobre filmes ou envolve outras mídias?
Envolve todas as mídias audiovisuais: séries de TV, novelas, animações, documentários, vlogs e até jogos eletrônicos. O conceito central é a motivação da viagem a partir de uma referência visual narrativa vista em tela, independentemente do formato.
2. É possível visitar os cenários reais de produções famosas?
Na maioria dos casos, sim, mas com variações importantes. Algumas locações ficam em propriedades privadas e exigem tour pago (como Hobbiton, na Nova Zelândia). Outras são espaços públicos acessíveis gratuitamente, mas podem estar sujeitas a restrições sazonais ou a limites de visitação. Sempre vale checar previamente no site oficial do local.
3. O turismo de tela pode prejudicar os destinos, gerando overtourism?
Sim, é um risco real e documentado. Destinos como Dubrovnik, Hallstatt (Áustria) e Maya Bay (Tailândia) já enfrentaram problemas sérios de superlotação após viralizarem em produções audiovisuais. A solução depende de políticas públicas locais, como limite diário de visitantes, taxação diferenciada e dispersão dos fluxos para áreas vizinhas.
4. Como o Brasil pode se beneficiar mais desse mercado?
Combinando incentivos fiscais já existentes com marketing internacional ativo, apoio a festivais de cinema (como o de Brasília, Gramado e o RioFilm Festival) e investimento em infraestrutura nas locações mais fotogênicas. A integração entre Embratur, Ancine e trade turístico é apontada por especialistas como o principal motor de crescimento nesse segmento.
5. Qualquer pessoa pode participar de tours oficiais de filmagem?
Sim, a maioria é aberta ao público mediante inscrição e pagamento. Tours em Nova York, Los Angeles, Londres e Vancouver são organizados há décadas e funcionam como atividade turística regular. No Brasil, tours guiados a sets da Globo e a estúdios paulistas também já existem, embora em menor escala.
E você, já testou essa funcionalidade? Conte sua experiência (ou dúvidas) nos comentários! Se este guia te ajudou, compartilhe com alguém que também precisa saber disso. E para receber nossos tutoriais e análises em primeira mão, assine a newsletter do Tech Advisor Brasil.


