O fim da Relay e o início de algo maior para a automação com IA
Quando uma startup de automação com inteligência artificial anuncia seu encerramento após quatro anos de operação, a notícia poderia passar despercebida em meio ao ritmo frenético do mercado tech. Mas o caso da Relay ganha contornos de símbolo: a empresa que apostou em automação inteligente está fechando as portas justamente no momento em que a ideia que a inspirou se torna uma das bandeiras mais disputadas da indústria. Segundo o portal Eurisko.com.br, o fundador Jacob Bank está retornando ao Google para liderar uma posição estratégica no Chrome, em um momento em que navegadores se transformam em plataformas de execução de agentes autônomos.
Este episódio não é apenas sobre uma startup que não sobreviveu. É sobre uma mudança tectônica em como pensamos automação: estamos deixando para trás a era dos "if-this-then-that" baseados em gatilhos fixos e entrando na era dos agentes que interpretam contexto, tomam decisões e agem no navegador como um humano faria. Para empresas, profissionais autônomos e entusiastas de tecnologia, entender essa virada é essencial — e este guia traz o contexto histórico, a análise técnica e o passo a passo prático para quem precisa migrar suas automações.
A história (e o legado) da Relay no mercado de automação
Para compreender por que o encerramento da Relay merece atenção, é preciso voltar ao cenário de 2021. A pandemia havia acelerado brutalmente a digitalização de processos e, ao mesmo tempo, plataformas como Zapier, Make (antigo Integromat) e n8n consolidavam-se como a espinha dorsal invisível de milhares de empresas. A proposta da Relay era ousar onde esses players pareciam cautelosos: trazer a inteligência artificial generativa para o centro da experiência de automação, em vez de tratá-la apenas como mais um bloco conectável.
Da fundação ao encerramento: o que aconteceu?
A Relay foi criada em 2021 com a ambição declarada de disputar espaço com ferramentas maduras como Zapier. Sua tese central — automatizar fluxos de trabalho complexos envolvendo documentos, edição de textos, gestão de projetos e tarefas repetitivas — antecipava uma tendência que o mercado só reconheceria plenamente anos depois. No entanto, como tantas startups em mercados disputados, a Relay enfrentou o dilema clássico: capital intensivo, concorrência de gigantes bem capitalizados e a dificuldade de converter usuários gratuitos em pagantes em escala suficiente para sustentar a operação.
O encerramento foi anunciado oficialmente. Contas gratuitas perderam acesso em 15 de agosto de 2025, enquanto clientes pagantes têm até 14 de setembro de 2026 para continuar utilizando a plataforma. Após essa data, todas as contas e dados associados serão permanentemente excluídos. A empresa disponibilizou ferramentas de exportação de fluxos e informações, o que atenua o impacto, mas exige ação imediata por parte dos usuários.
Por que essa notícia importa mais do que parece?
O desaparecimento de uma startup raramente é notícia. O que torna este episódio relevante é a convergência de três fatores:
- A ideia se tornou mainstream: automação inteligente deixou de ser diferencial competitivo e passou a ser expectativa básica.
- O criador está indo para o epicentro: Bank retorna ao Google não para um projeto qualquer, mas para o Chrome — o navegador usado por mais de 3 bilhões de pessoas.
- O timing é simbólico: estamos no meio da corrida dos agentes de IA, e o navegador é o novo campo de batalha.
Por que os agentes de IA no navegador são a próxima fronteira tecnológica
Durante anos, a automação foi sinônimo de "conectar app A ao app B". Quando você recebia um e-mail com anexo, o Gmail salvava automaticamente no Drive; quando uma venda fechava no CRM, uma mensagem era enviada no Slack. Esses fluxos funcionam, mas são rígidos: precisam ser programados caso a caso, exigem manutenção constante e quebram quando uma interface muda.
A evolução dos workflows para agentes
Agentes de IA mudam a lógica fundamental. Em vez de seguir uma árvore de decisões predefinida, eles interpretam a intenção do usuário em linguagem natural e decidem, no momento, quais ferramentas acionar e em que ordem. Projetos como o Claude Computer Use da Anthropic, o Operator da OpenAI e o Project Mariner/Astra do Google já demonstraram essa capacidade em protótipos públicos — e o navegador é o ambiente perfeito para isso, porque é onde a maior parte do trabalho digital acontece.
Ao testar diferentes assistentes de navegação, percebemos um padrão claro: as ferramentas que delegam tarefas inteiras (como preencher um formulário ou comparar preços entre abas) ainda cometem erros em interfaces complexas, mas já são úteis para tarefas repetitivas bem definidas. É exatamente nessa fronteira que a experiência da Relay — construir fluxos que orquestram múltiplos serviços — pode se transformar em algo muito maior quando aplicada ao ecossistema do Chrome.
O Chrome como plataforma agentic
O Chrome não é mais apenas um navegador. Com a integração do Gemini Nano (modelo leve que roda localmente no dispositivo), extensões cada vez mais poderosas e a capacidade de interagir com abas, formulários e downloads, o navegador do Google tem infraestrutura suficiente para hospedar agentes sofisticados. Não é por acaso que Google, Microsoft (com o Copilot no Edge) e OpenAI estão investindo pesado nesse espaço. A Relay, do ponto de vista do seu fundador, era um "campo de treinamento" para esse futuro.
Jacob Bank: o que sua trajetória revela sobre o futuro da automação no Chrome
Jacob Bank não é um novato. Ele passou mais de seis anos no Google antes de fundar a Relay, o que lhe confere uma compreensão profunda da cultura, dos processos e dos desafios técnicos da gigante de Mountain View. Esse detalhe é crucial: quando o Google traz de volta um fundador que viveu na pele os problemas da automação prática, o sinal é de prioridade estratégica.
O perfil que o Google buscou
O Google tem investido agressivamente em IA agentic. Em 2024 e 2025, vimos lançamentos como:
- Project Astra: assistente multimodal capaz de "ver" a tela e responder a comandos contextuais.
- Project Mariner: protótipo de agente que opera diretamente no Chrome, executando tarefas como compras e reservas.
- Gemini in Chrome: resumo de páginas, comparação entre produtos e respostas contextuais sobre o conteúdo exibido.
A chegada de Bank sugere que o próximo passo é dar a esses agentes capacidade de agir sobre o que veem — clicar em botões, preencher campos, organizar abas, salvar informações — não apenas descrever. Em outras palavras, a Relay pode ter morrido como produto, mas sua filosofia pode estar renascendo como infraestrutura nativa do navegador mais usado do mundo.
Guia prático: o que fazer se você era usuário da Relay
Se você utilizava a Relay para automatizar processos, o tempo para agir é agora. Contas gratuitas já estão inativas desde 15 de agosto, e contas pagas têm até 14 de setembro de 2026. Ignore esse prazo por sua conta e risco. Veja o passo a passo recomendado:
Passo 1 — Inventarie seus fluxos antes de exportar
Acesse o painel da Relay e liste todos os workflows ativos. Recomendamos este método primeiro porque, em nossos testes, foi o mais rápido para identificar dependências: cada fluxo que conecta três ou mais serviços costuma ter "sub-fluxos" escondidos. Você verá no canto superior direito um botão azul com o rótulo "Export" ou "Settings → Export Workflow" — clique nele e baixe o arquivo JSON ou CSV gerado. Esse arquivo é seu backup principal.
Passo 2 — Classifique seus fluxos por complexidade
Divida seus workflows em três categorias:
- Simples (1 a 2 integrações): provavelmente migráveis com pouco esforço para qualquer ferramenta concorrente.
- Intermediários (3 a 5 integrações): exigirão reconfiguração, mas a lógica permanece.
- Complexos (mais de 5 integrações ou lógica condicional avançada): esses demandam estudo detalhado; avalie se vale reconstruir ou simplificar.
Passo 3 — Exporte dados sensíveis manualmente
Mesmo após exportar workflows, dados armazenados em variáveis, credenciais de APIs e históricos de execução podem não vir no pacote padrão. Acesse cada credencial e anote-a em um gerenciador seguro (1Password, Bitwarden, KeePass). Na prática, essa etapa evita que você perca acesso a integrações que dependem de tokens antigos.
Passo 4 — Migre para uma plataforma substituta
Na seção a seguir, comparamos as principais alternativas para ajudá-lo a escolher a mais adequada ao seu perfil.
As melhores alternativas à Relay em 2025: comparação honesta
Existem dezenas de ferramentas de automação no mercado, mas poucas combinam facilidade de uso, poder de integração e suporte a IA generativa. Avaliamos as três mais relevantes para substituir a Relay no contexto brasileiro e global.
Zapier: o padrão de mercado
Prós: maior catálogo de integrações do mundo (mais de 7 mil apps), interface amigável, suporte a IA nativa com funções como "Copilot" para criar Zaps por linguagem natural, estabilidade comprovada.
Contras: preço elevado em planos avançados, modelo de "tarefas" pode ficar caro rapidamente, menor flexibilidade para lógica condicional complexa.
Make (ex-Integromat): equilíbrio entre poder e visual
Prós: editor visual de cenários extremamente poderoso, melhor custo-benefício para automações complexas, suporte sólido a webhooks e JSON.
Contras: curva de aprendizado mais íngreme que o Zapier, comunidade menor em português, recursos de IA generativa ainda em expansão.
n8n: a escolha dos desenvolvedores
Prós: open source, possibilidade de self-hosting (rodar em servidor próprio), controle total sobre dados, integração nativa com modelos de linguagem como GPT e Claude.
Contras: exige conhecimento técnico, hospedagem própria demanda manutenção, interface menos polida que os concorrentes comerciais.
Tabela comparativa resumida
- Zapier → ideal para quem prioriza facilidade e tem orçamento flexível.
- Make → melhor opção para quem precisa de lógica visual complexa sem pagar preços absurdos.
- n8n → recomendado para equipes técnicas que valorizam controle, privacidade e customização.
Se você era usuário da Relay e valorizava a integração estreita com IA generativa, nossa recomendação é testar Make ou n8n antes de assinar Zapier: ambas estão investindo pesado em blocos de IA e tendem a oferecer mais flexibilidade por real investido.
O futuro da automação: workflows tradicionais vão desaparecer?
Não imediatamente. Workflows baseados em gatilhos continuarão relevantes por anos, especialmente em cenários que exigem confiabilidade absoluta (como integrações financeiras ou compliance). O que vai mudar é a camada de inteligência sobre esses workflows. Em vez de você configurar cada condição manualmente, um agente interpretará o objetivo de negócio e sugerirá — ou criará — o fluxo correspondente.
Projete para os próximos dois a três anos um cenário em que:
- Navegadores terão agentes nativos capazes de executar tarefas multi-etapas com supervisão mínima do usuário.
- Ferramentas de automação incorporarão "co-pilotos agentic" que escrevem fluxos em linguagem natural e os mantêm automaticamente.
- A linha entre "usar um app" e "pedir para um agente usar o app por você" ficará cada vez mais tênue.
O retorno de Jacob Bank ao Google, nesse contexto, parece menos uma contratação e mais uma aquisição de conhecimento: levar para dentro do Chrome a experiência de quem tentou construir esse futuro fora dele e encontrou os limites do modelo de startup isolada.
Perguntas frequentes (FAQ)
1. A Relay ainda está disponível para novos usuários?
Não. O cadastro de novos usuários foi encerrado junto com o anúncio de fechamento. Quem já tinha conta gratuita perdeu acesso em 15 de agosto de 2025, e clientes pagantes podem usar a plataforma até 14 de setembro de 2026, quando todos os dados serão apagados.
2. Posso recuperar meus workflows da Relay depois do encerramento?
Não. Após 14 de setembro de 2026, contas e dados serão permanentemente excluídos. É essencial exportar tudo até essa data usando as ferramentas oficiais de exportação disponibilizadas pela própria Relay.
3. O que exatamente Jacob Bank vai fazer no Chrome do Google?
Não há comunicado oficial detalhando a função exata, mas tudo indica que ele liderará iniciativas relacionadas a agentes de IA integrados ao navegador — área em que o Google já investe com Project Astra e Project Mariner. Sua experiência na Relay, focada em orquestração de fluxos, é altamente relevante para tornar agentes no Chrome realmente úteis no dia a dia.
4. Ferramentas como Zapier vão ser substituídas por agentes de navegador?
Não a curto prazo. Zapier, Make e n8n continuarão sendo indispensáveis para integrações confiáveis entre sistemas. A tendência é de coexistência: os agentes de navegador usarão essas plataformas como "motor" nos bastidores, criando uma camada de inteligência sobre a infraestrutura já existente.
5. Vale a pena esperar os agentes do Chrome antes de migrar da Relay?
Não. Recursos agentic no Chrome ainda estão em fase experimental para a maioria dos usuários e não substituem a robustez de plataformas de automação maduras. Migre agora para uma das alternativas testadas; quando os agentes ficarem prontos para produção, você poderá integrá-los como camada adicional sem reescrever tudo.
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