Um sistema que recomenda materiais e estratégias de ensino de acordo com a forma como cada estudante aprende conquistou dois prêmios nacionais. O SIREEDU (Sistema de Recomendação Educacional), desenvolvido no Instituto Federal de São Paulo (IFSP), Campus Jacareí, em parceria com o Instituto de Ciência e Tecnologia da Universidade Federal de São Paulo (ICT/Unifesp), ficou com o 3º lugar na categoria Software do concurso Apps.Edu 2026. O estudo que deu origem à plataforma levou o 1º lugar no Concurso Alexandre Direne de Teses e Dissertações em Informática na Educação (CTD-IE).

As duas premiações aconteceram no 15º Congresso Brasileiro de Informática na Educação (CBIE 2026), realizado em Goiânia e promovido pela Sociedade Brasileira de Computação (SBC). O reconhecimento chega a um projeto de extensão nascido de uma pergunta que qualquer professor já se fez: se cada aluno aprende de um jeito, por que tantas vezes todos recebem o mesmo material, da mesma forma?

Na foto, Lucineide Pimenta, autora do estudo que deu origem ao SIREEDU, com o certificado do concurso Apps.Edu 2026. Crédito: Thalia Santana.

O que você precisa saber

  • O que é: o SIREEDU é uma plataforma que recomenda recursos educacionais digitais e metodologias de ensino de acordo com o perfil de cada estudante.
  • Quem fez: estudantes do IFSP e da Unifesp, em um projeto de extensão do IFSP – Campus Jacareí em parceria com o ICT/Unifesp. O estudo que originou o sistema é de Lucineide Nunes Pimenta, com orientação de Tiago de Oliveira.
  • Para quê: enfrentar dois dos maiores desafios da educação, a retenção e a evasão escolar.
  • Como funciona: questionários baseados na Teoria das Inteligências Múltiplas, de Howard Gardner, e nos Estilos de Aprendizagem de Alonso geram pontuações que descrevem o perfil do estudante.
  • Prêmios: 3º lugar no Apps.Edu 2026, categoria Software, e 1º lugar no CTD-IE, ambos no CBIE 2026.
  • Situação atual: o sistema está em fase de testes e segue em desenvolvimento.

Uma ideia que nasceu dentro da sala de aula

Muitas inovações em educação começam fora da escola, em laboratórios e empresas de tecnologia, e só depois tentam encontrar espaço na rotina de professores e alunos. O SIREEDU fez o caminho inverso. A ideia surgiu da experiência de quem vive a sala de aula dos dois lados.

Lucineide Nunes Pimenta, autora do estudo que deu origem ao sistema, conta que a motivação veio da própria trajetória: “O SIREEDU surgiu da minha ideia, dos meus questionamentos e da minha observação, tanto como professora quanto como aluna. Percebi que cada estudante aprende de um jeito e cada professor explica de um jeito”.

A frase resume o problema que o projeto quer atacar. Em uma mesma turma convivem estudantes que entendem melhor um conteúdo lendo, outros que precisam ver um exemplo, outros que só fixam o assunto quando colocam a mão na massa. Do outro lado, cada professor tem seu repertório, seu ritmo e suas preferências. Quando essas duas pontas não se encontram, o aprendizado fica mais difícil, e parte dos alunos fica pelo caminho.

A observação virou pesquisa acadêmica, a pesquisa virou um sistema funcional, e o sistema foi desenvolvido por estudantes do IFSP e da Unifesp em um projeto de extensão, modalidade que leva o conhecimento produzido nas instituições para além dos seus muros.

O que é o SIREEDU, afinal

O nome já diz muito: trata-se de um sistema de recomendação educacional. Sistemas de recomendação fazem parte do cotidiano de quase todo mundo, mesmo que pouca gente pense neles com esse nome. São eles que sugerem a próxima série em uma plataforma de streaming, a próxima música em um aplicativo ou um produto parecido com o que você acabou de ver em uma loja virtual. A lógica é sempre a mesma: entender preferências e características de quem usa para indicar o que tende a ser mais útil ou interessante.

O SIREEDU aplica essa ideia à educação, com uma diferença importante. O objetivo não é manter ninguém navegando por mais tempo, e sim ajudar o estudante a aprender. Em vez de entregar o mesmo material a toda a turma, a plataforma recomenda produtos educacionais e metodologias de ensino de acordo com características associadas ao perfil de cada aluno.

Há ainda um ponto prático. A internet reúne uma quantidade enorme de videoaulas, exercícios, textos, simulações e jogos educativos, de qualidade muito variada. Para um professor, encontrar o material certo para cada estudante é uma tarefa que consome tempo. O SIREEDU se propõe a organizar esse universo e a ligar cada aluno ao que tende a funcionar melhor para ele.

Por que personalizar o ensino importa

O projeto mira dois problemas que preocupam escolas e universidades: a retenção e a evasão.

  • Retenção é quando o estudante não consegue concluir uma etapa no tempo previsto. Ele é reprovado, precisa refazer disciplinas ou atrasa a formação.
  • Evasão é quando ele deixa o curso ou a escola antes de terminar.

Os dois fenômenos têm causas variadas, de dificuldades financeiras a questões familiares, e nenhuma ferramenta resolve tudo sozinha. Mas há um fator que está ao alcance da própria escola: a experiência de aprendizagem. Um aluno que acumula dificuldades em uma disciplina, sem encontrar uma forma de explicação que faça sentido para ele, tende a se desmotivar, e a desmotivação costuma estar no caminho que leva à repetência e ao abandono.

É nesse ponto que o SIREEDU atua. Ao indicar recursos e estratégias mais próximos do jeito de aprender de cada estudante, o sistema busca tornar o estudo mais eficiente e mais significativo, e com isso reduzir as chances de que ele fique para trás.

Como o SIREEDU traça o perfil de cada estudante

Para recomendar bem, o sistema precisa antes conhecer o aluno. Essa leitura se apoia em duas referências consolidadas no campo da educação.

A Teoria das Inteligências Múltiplas, de Howard Gardner

Proposta pelo psicólogo norte-americano Howard Gardner, professor da Universidade Harvard, a teoria questiona a ideia de que a inteligência seja uma capacidade única, medida por um só tipo de teste. Para Gardner, as pessoas combinam diferentes inteligências, desenvolvidas em graus variados. Entre elas estão a linguística, ligada às palavras; a lógico-matemática, ligada ao raciocínio e aos números; a espacial, ligada à visualização; a musical; a corporal-cinestésica, ligada ao movimento; a interpessoal, que envolve a relação com os outros; a intrapessoal, voltada ao autoconhecimento; e a naturalista, ligada à observação da natureza.

Aplicada à sala de aula, a teoria sugere que um mesmo conteúdo pode ser apresentado por caminhos diferentes, e que valorizar esses caminhos amplia as chances de cada estudante aprender.

Os Estilos de Aprendizagem de Alonso

A segunda referência são os Estilos de Aprendizagem de Alonso, associados à pesquisadora espanhola Catalina Alonso. O modelo descreve preferências na forma de lidar com a informação e costuma ser apresentado em quatro estilos:

  • Ativo: aprende melhor experimentando, participando e vivendo situações novas;
  • Reflexivo: prefere observar, analisar com calma e considerar diferentes pontos de vista antes de concluir;
  • Teórico: busca entender modelos, conceitos e a lógica por trás das coisas;
  • Pragmático: valoriza a aplicação prática e quer saber como usar o que aprendeu.

Do questionário à recomendação

Na prática, o processo apresentado pelo projeto funciona em etapas:

  1. o estudante responde a questionários construídos a partir dessas referências;
  2. as respostas são transformadas em pontuações;
  3. o sistema analisa essas pontuações e identifica as características associadas ao perfil do aluno;
  4. com base nesse perfil, a plataforma recomenda recursos educacionais e estratégias pedagógicas.

Ninguém cabe em uma caixa só

Os primeiros testes do projeto trouxeram uma constatação importante: um mesmo estudante pode apresentar características de mais de um grupo. Em vez de ser tratado como problema, esse resultado foi incorporado à proposta. O SIREEDU não enquadra o aluno em um rótulo rígido, como “visual” ou “prático”. A leitura do perfil é flexível, o que se aproxima de como as pessoas realmente aprendem: combinando estratégias conforme o conteúdo, o momento e o objetivo.

Tecnologia com curadoria humana

Um dos pontos mais interessantes do SIREEDU é o papel que ele reserva a professores e alunos. O sistema não pretende decidir sozinho o que é um bom material. A ideia é ligar o estudante ao que já existe de qualidade e contar com quem está na sala de aula para separar o que funciona do que não funciona.

O orientador do estudo, Tiago de Oliveira, resume essa função: “O que o SIREEDU faz é essa ponte: tenta ligar o que tem de bom à curadoria dos próprios professores, que vão dizer se aquele material é bom ou não, e dos próprios alunos”.

Essa escolha tem uma consequência importante. A tecnologia não substitui o professor: ela amplia o alcance do seu trabalho. O docente continua sendo quem conhece a turma, avalia a qualidade dos conteúdos e decide como usá-los. A plataforma ajuda a organizar e direcionar as opções, e a experiência dos próprios estudantes também entra na conta.

Dois prêmios nacionais no CBIE 2026

O reconhecimento veio no 15º Congresso Brasileiro de Informática na Educação, o CBIE 2026, realizado em Goiânia e promovido pela Sociedade Brasileira de Computação (SBC). O congresso reúne pesquisadores, professores, estudantes e desenvolvedores que trabalham na interseção entre computação e educação. Nesta edição, o SIREEDU foi premiado em dois concursos diferentes, que avaliam aspectos distintos de um trabalho.

3º lugar no Apps.Edu 2026, categoria Software

O Apps.Edu é voltado a soluções tecnológicas para a educação. O SIREEDU conquistou o 3º lugar na categoria Software depois de percorrer as etapas da competição: avançou até a penúltima fase, participou da Mostra de Software, em que os sistemas são apresentados ao público do evento, e defendeu o projeto em um pitch, uma apresentação curta e objetiva, diante da banca final.

1º lugar no CTD-IE

O estudo que deu origem ao sistema conquistou o 1º lugar no Concurso Alexandre Direne de Teses e Dissertações em Informática na Educação (CTD-IE), que reconhece pesquisas de pós-graduação da área. Na avaliação, feita online pela banca, foram apresentados a dissertação, o sistema em funcionamento e a investigação realizada em contexto real de ensino, com a participação de estudantes e professores.

A combinação dos dois resultados é o que torna a conquista especial. Um dos prêmios reconheceu o SIREEDU como produto de software. O outro reconheceu a pesquisa que o sustenta, incluindo a investigação feita com estudantes e professores. É o caminho completo de uma inovação em educação, da ideia ao teste prático, avaliado e premiado em nível nacional.

Um projeto em fase de testes: o que vem pela frente

Apesar dos prêmios, o SIREEDU ainda não é um produto pronto para uso em larga escala. O sistema está em fase de testes e segue em desenvolvimento. A equipe já aponta os próximos passos:

  1. Chegar a outras instituições de ensino, ampliando o uso da plataforma para além do ambiente em que foi desenvolvida.
  2. Atender outras disciplinas, indo além da lógica de programação, área em que o projeto concentra sua aplicação atual.
  3. Incorporar o engajamento de estudantes e professores. Segundo Tiago de Oliveira, uma das frentes futuras é fazer com que as avaliações que alunos e docentes derem aos materiais passem a contribuir para as recomendações e para a curadoria.

Esse terceiro ponto aprofunda a lógica de curadoria coletiva. Hoje o sistema recomenda a partir do perfil do estudante. No futuro, a experiência de quem usa os materiais também deverá orientar o que é indicado.

O que o SIREEDU representa

O SIREEDU reúne três elementos que nem sempre aparecem juntos em projetos de tecnologia educacional: a origem em uma inquietação real de sala de aula, a fundamentação em pesquisa acadêmica e a validação com estudantes e professores. É também um exemplo do que instituições públicas produzem quando ensino, pesquisa e extensão caminham juntos: estudantes do IFSP e da Unifesp transformaram uma dissertação em um sistema premiado nacionalmente.

Em um momento em que a tecnologia está cada vez mais presente nas escolas, a principal contribuição do projeto talvez esteja na pergunta que ele coloca no centro. A questão não é qual tecnologia usar, e sim qual caminho ajuda cada estudante a aprender. É dessa pergunta, feita por uma professora que também foi aluna, que nasceu um dos trabalhos premiados no CBIE 2026.

Perguntas frequentes sobre o SIREEDU

O que é o SIREEDU?

É o Sistema de Recomendação Educacional, uma plataforma que recomenda produtos educacionais e metodologias de ensino de acordo com características do perfil de cada estudante.

Quem desenvolveu o sistema?

Estudantes do IFSP e da Unifesp, em um projeto de extensão do IFSP – Campus Jacareí em parceria com o ICT/Unifesp. O estudo que deu origem ao sistema é de Lucineide Nunes Pimenta, com orientação de Tiago de Oliveira.

Quais prêmios o SIREEDU recebeu?

O 3º lugar no Apps.Edu 2026, na categoria Software, e o 1º lugar no Concurso Alexandre Direne de Teses e Dissertações em Informática na Educação (CTD-IE), conquistado pelo estudo que originou o sistema. Os dois prêmios foram concedidos no 15º Congresso Brasileiro de Informática na Educação (CBIE 2026), em Goiânia.

Em que teorias o sistema se baseia?

Na Teoria das Inteligências Múltiplas, de Howard Gardner, e nos Estilos de Aprendizagem de Alonso.

O SIREEDU já pode ser usado por escolas?

O sistema ainda está em fase de testes e segue em desenvolvimento. Instituições interessadas em parcerias podem entrar em contato com a equipe pelo e-mail suporte@sireedu.com.br.

Serviço

  • Projeto: SIREEDU – Sistema de Recomendação Educacional
  • Desenvolvimento: parceria entre o IFSP – Campus Jacareí e o ICT/Unifesp
  • Situação: em fase de testes
  • Site: sireedu.com.br
  • Informações e parcerias: suporte@sireedu.com.br

Com informações da Comissão de Comunicação Institucional do IFSP – Campus Jacareí (texto de Flávia Bezerra).