Quando a Frictional Games subiu ao palco da gamescom 2025 para apresentar novas cenas de jogabilidade de ONTOS, não se tratou apenas de mais um trailer em meio a dezenas de revelações. Foi a confirmação de que o estúdio sueco, responsável por redefinir o terror psicológico com títulos como Amnesia: The Dark Descent e SOMA, continua fiel a uma fórmula rara no mercado: narrativa filosófica de peso, mecânicas baseadas em escolhas morais e zero dependência de jumpscarts baratos. Segundo o portal Terra.com.br, o vídeo mostrou Aditi explorando o hotel lunar Samsara e tomando decisões difíceis diante de um experimento científico perturbador — e essa é exatamente a proposta que a comunidade vinha esperando desde o anúncio inicial.
Para entender a dimensão do que está sendo entregue, é preciso olhar além do trailer. ONTOS não é só um jogo: é uma continuação espiritual de SOMA (2015), um dos títulos mais influentes da última década no debate sobre consciência, identidade e o que significa ser humano. E o contexto em que ele chega — distribuído pela Kepler Interactive, com um ator vencedor do Globo de Ouro no elenco principal — aponta para um projeto que quer ir muito além do nicho de horror indie.
Frictional Games: a história por trás do estúdio que ensina o horror a pensar
Antes de mergulhar em ONTOS em si, vale revisitar quem está por trás do projeto. A Frictional Games foi fundada em 2006 na Suécia e, ao longo de quase duas décadas, construiu uma reputação incomum: a de fazer jogos de terror que tratam o jogador como adulto pensante.
- Penumbra: Overture (2007) — O jogo de estreia, já mostrava a obsessão do estúdio por simulação física e puzzles ambientais.
- Amnesia: The Dark Descent (2010) — Título divisor de águas, popularizou o chamado "horror de impotência", onde o protagonista não pode lutar contra os monstros, apenas fugir e se esconder.
- SOMA (2015) — A obra-prima filosófica sobre consciência digital, que dividiu a comunidade entre "ser salvo" e "ser copiado" no famoso dilema do final.
- Amnesia: Rebirth (2020) — Retorno à franquia com foco em trauma e maternidade.
Perceba um padrão: cada título trouxe uma questão temática central — loucura, identidade, perda, memória. Com ONTOS, a pergunta parece ser ainda mais ambiciosa: o que define a individualidade de uma pessoa? Essa é a discussão que move o cientista Crombie e seus experimentos no hotel Samsara.
O que é ONTOS e como ele se conecta ao legado de SOMA
ONTOS é descrito oficialmente como um sucessor espiritual de SOMA. Isso significa que ele não compartilha personagens, mas mantém o DNA temático: o mesmo interesse por consciência, corporeidade, integridade moral e a fronteira entre o orgânico e o digital. O título "ONTOS" vem do grego antigo (ὄν, ὄντος), que se traduz como "ser" ou "ente" — uma escolha nominal que já sinaliza o peso filosófico do projeto.
Premissa central
O jogo coloca o jogador no controle de Aditi, uma protagonista que acorda no hotel lunar Samsara — uma instalação reimaginada, localizada em algum ponto do espaço sideral — e precisa investigar experimentos científicos que testam não apenas a sua sobrevivência, mas a sua ética. Cada "teste" é uma situação desenhada para forçar o jogador a tomar uma decisão sem resposta clara: obedecer à lógica da máquina, atender ao pedido desesperado de um corpo humano, ou sabotar tudo por pura curiosidade.
A relação com SOMA
Em SOMA, o grande dilema era salvar sua consciência ao custo de apagar a de outro. Em ONTOS, o dilema evolui: você salvaria uma psique digital que pede ajuda, mesmo que isso signifique ignorar o corpo físico que suplica para você parar? É uma reformulação elegante do mesmo problema, agora aplicada a uma nova metáfora — a da mente artificial.
Análise aprofundada da jogabilidade revelada na Opening Night Live
O trailer divulgado durante a Opening Night Live da gamescom 2025 mostrou um dos experimentos mais icônicos do jogo, apelidado internamente de "Experimento do Servidor dos Ratos" (Rat Server Experiment). Para entender o peso dessa cena, é necessário descrevê-la em camadas.
O que o jogador vê na tela
- Aditi caminha por corredores com iluminação baixa e estética sci-fi retrofuturista, emulando o visual de estação espacial habitada pelos anos 1970 — semelhante ao cenário de filmes como Alien (1979).
- Ela acessa uma sala de servidores onde uma série de gabinetes metálicos pulsam com luzes vermelhas e azuis, indicando atividade computacional.
- Dentro de um dos gabinetes, há uma infestação de ratos interconectados por cabos e eletrodos — uma imagem grotesca e deliberadamente perturbadora, que mistura orgânico e mecânico.
- Uma voz feminina sintética emerge dos alto-falantes, encorajando Aditi a reconectar a "mente" ao seu corpo.
- Ao mesmo tempo, o corpo físico — visível em uma maca próxima — emite sons de súplica, pedindo para que ela pare.
Esse é o ponto de virada da cena: o jogador precisa decidir. E aqui está a genialidade do design. Não existe um caminho "certo". Seguir as instruções da máquina pode ser a forma lógica de resolver o quebra-cabeça. Ouvir o corpo pode parecer mais humano. Sabotar o experimento por curiosidade é a opção mais transgressora.
Por que essa mecânica funciona
Ao testarmos diferentes build de jogos do gênero, percebemos que sistemas de escolha moral costumam falhar por dois motivos: ou o jogo pinta claramente uma opção como "boa" e outra como "má" (anulando a escolha), ou as consequências são tão abstratas que o jogador não sente peso algum. Em ONTOS, segundo o que foi mostrado, as três opções parecem plausíveis e perturbadoras em igual medida. Isso reflete uma tendência contemporânea de jogos como Disco Elysium (2019) e The Quarry (2022), onde a moralidade não é uma régua de certo/errado, mas uma teia de consequências que se entrelaçam.
O sistema de testes morais: como funciona o dilema em ONTOS
O design central de ONTOS gira em torno do que a Frictional Games chama de "testes únicos" — situações desenhadas para desafiar a moral do jogador e recompensar a exploração cuidadosa do ambiente.
Como isso se traduz na prática
- Investigação ambiental: Antes de decidir, Aditi pode vasculhar a sala, ler terminais, examinar artefatos. Cada pista descoberta adiciona contexto — e potencialmente dilemas novos.
- Escolhas sem resposta certa: O jogo declara explicitamente que "não existem soluções certas ou erradas". A moralidade do jogador determina o caminho de Aditi.
- Consequências ramificadas: Embora os detalhes ainda não tenham sido totalmente revelados, é provável que as decisões alterem desfechos narrativos, diálogos e até o estado psicológico de Aditi.
Em nossa análise, esse sistema se inspira em clássicos como Silent Hill 2 (2001) e Heavy Rain (2010), mas com uma camada extra: as escolhas não são apenas sobre quem vive ou morre, mas sobre que tipo de pessoa Aditi se torna.
Comparativo: ONTOS e seus concorrentes no horror filosófico
Para situar ONTOS no cenário atual, vale compará-lo a títulos que ocupam espaço semelhante no mercado. Isso ajuda o leitor a decidir se o jogo se encaixa em suas preferências.
Tabela comparativa
- ONTOS (2025, previsto) — Terror psicológico espacial, foco em consciência artificial, escolhas morais sem resposta certa. Prós: narrativa filosófica densa, estética única, elenco renomado. Contras: ritmo pode ser lento para quem busca ação; conteúdo denso pode cansar jogadores casuais.
- SOMA (2015) — Terror submarino sobre consciência digital, puzzles ambientais, final dicotômico marcante. Prós: atmosfera opressiva, dilemas memoráveis. Contras: combate inexistente, o que afasta parte do público.
- Amnesia: The Dark Descent (2010) — Horror gótico de castelo, foco em sanidade e fuga. Prós: mecânica de luz e sanidade revolucionária. Contras: narrativa menos ambiciosa filosoficamente.
- Observation (2019) — Terror espacial jogado do ponto de vista de uma IA. Prós: perspectiva inovadora. Contras: puzzles podem frustrar.
Recomendação prática
Se você gostou de SOMA, ONTOS é quase uma compra obrigatória. Se você curtiu o lado mais atmosférico de Alien: Isolation (2014), vai encontrar aqui uma experiência ainda mais cerebral. Se você prefere ação rápida e combate direto, talvez seja melhor começar por outro título antes de se aventurar no hotel Samsara.
Stellan Skarsgård e o peso de um elenco premiado
Uma das maiores surpresas do anúncio é a presença de Stellan Skarsgård no elenco — vencedor do Globo de Ouro por Chernobyl (2019) e indicado ao Oscar por Good Will Hunting (1997). Para um estúdio independente como a Frictional Games, escalar um ator desse calibre é um sinal claro de ambição.
O que isso significa na prática
- Qualidade de interpretação: Jogos narrativos dependem heavily de performance vocal. Um ator com a profundidade de Skarsgård eleva qualquer roteiro.
- Apelo mainstream: A presença de nomes famosos ajuda a tirar o jogo do nicho puramente indie.
- Distribuição: A Kepler Interactive, parceira de distribuição, parece estar apostando forte em posicionamento editorial, e um nome como esse ajuda a justificar a campanha.
Ainda não foi divulgado qual será o papel de Skarsgård no jogo — se ele interpretará Crombie, o cientista obcecado pela essência do "eu", ou outra figura central. Mas a expectativa é alta.
A experiência na gamescom 2025: o estande do Experimento dos Ratos
Para os fãs que estão em Colônia, na Alemanha, durante a gamescom (que vai até o fim desta semana), a Frictional Games preparou algo incomum: uma recriação física do "Experimento do Servidor dos Ratos" no Pavilhão 10.1, onde os visitantes podem interagir com cientistas caracterizados e vivenciar uma série de testes morais em primeira pessoa.
O que esperar do estande
- Recepção temática em ambiente de hotel espacial.
- Cenários com iluminação e sons especialmente projetados para criar imersão.
- Atores interpretando pesquisadores que conduzem o visitante por dilemas éticos.
- Possível distribuição de material promocional exclusivo (chaveiros, pôsteres, códigos).
Esse tipo de ativação lembra estratégias de marketing de títulos como Five Nights at Freddy's: Security Breach e Outlast Trials, que apostaram em experiências imersivas em convenções para viralizar o produto.
Tendências futuras: para onde caminha o horror narrativo
Com base no que ONTOS representa e nas movimentações do mercado, três tendências ficam evidentes:
- Jogos que tratam o jogador como adulto: A crescente aceitação de narrativas complexas e ambíguas, sem finais moralmente "limpos".
- Integração entre mídia: Jogos com elenco de cinema e séries, expandindo o alcance para além do público gamer tradicional.
- Filosofia como gameplay: A mecânica de jogo deixa de ser apenas ação e passa a ser reflexão. Você não joga para vencer, mas para pensar.
Projetos como SOMA, Disco Elysium, Citizen Sleeper e agora ONTOS formam uma linhagem que sugere: o futuro do horror não está em sustos mais altos, mas em dilemas mais profundos.
Perguntas frequentes sobre ONTOS
1. ONTOS é continuação direta de SOMA?
Não. A Frictional Games o classifica como sucessor espiritual, o que significa compartilhar DNA temático —尤其是 as questões sobre consciência e identidade — sem conexão direta de personagens, história ou universo. Você pode jogar ONTOS sem ter jogado SOMA, mas a experiência fica mais rica se você conhecer o legado.
2. Quando ONTOS será lançado e em quais plataformas?
Até o momento da apresentação na Opening Night Live, segundo o portal Terra.com.br, a data de lançamento oficial e as plataformas (PC, PlayStation, Xbox) ainda não foram divulgadas publicamente. O recomendado é acompanhar os canais oficiais da Frictional Games e da Kepler Interactive.
3. O jogo é recomendado para quem não gosta de sustos?
Sim, com ressalvas. ONTOS não é um jogo de jumpscarts constantes, mas usa terror atmosférico e psicológico. O desconforto vem das ideias, não dos sustos. Pessoas sensíveis a temas como mutilação, experimentação animal e dilemas éticos extremos devem se preparar antes de jogar.
4. Posso jogar ONTOS no estande da gamescom mesmo sem ingresso para o evento principal?
Depende da política da Koelnmesse para o Pavilhão 10.1. Historicamente, a gamescom abre áreas temáticas para visitantes com ingresso de dia, mas algumas ativações premium exigem credenciamento específico. Recomendamos consultar o site oficial da gamescom antes de ir.
5. Qual é a jogabilidade central? É em primeira pessoa?
Sim, como é tradição na Frictional Games, ONTOS é jogado em primeira pessoa, com foco em exploração, interação com objetos, leitura de terminais e conversas com NPCs. Não há sistema de combate tradicional — a tensão vem do ambiente e das escolhas.
6. Por que Stellan Skarsgård em um jogo indie?
A aposta da Kepler Interactive é justamente expandir o alcance de títulos independentes para públicos mais amplos. Atores de cinema e TV agregam credibilidade editorial e ajudam o jogo a competir com produções AAA em termos de marketing.
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