Para entender o tamanho do problema, é preciso olhar para trás. Brown não é apenas uma atriz queridinha do público jovem de Stranger Things; ela se tornou, ao longo dos últimos cinco anos, uma das apostas mais robustas da Netflix em termos de retorno de marca, vendas de licenciamento e identidade cultural. Quando uma aposta como essa começa a balançar, o impacto vai muito além da carreira de uma atriz — afeta a forma como a empresa pensa em produzir, contratar e renovar seu catálogo.
O auge e o início da curva descendente: entendendo a trajetória de Millie Bobby Brown na Netflix
Para dimensionar o que está acontecendo com a atriz, vale recapitular os números que fizeram a Netflix apostar pesado nela. A jornada começou em 2016, quando Millie Bobby Brown tinha apenas 12 anos e estreou como Eleven em Stranger Things. A série se tornou um fenômeno global, mas foi somente entre 2020 e 2024 que a atriz consolidou seu nome como protagonista absoluta de longas originais da Netflix.
Os números que fizeram a Netflix assinar contratos milionários
Entre os títulos que sustentaram a fama de Brown no serviço de streaming, três se destacam como pilares de uma estratégia que parecia infalível:
- Enola Holmes (2020): primeira adaptação dos livros de Nancy Springer, baseada na irmã mais nova do famoso detetive. Abriu o caminho para a construção de uma franquia feminina jovem, sem os tradicionais esteriótipos do gênero. Foi um sucesso imediato, garantindo a renovação quase imediata.
- Enola Holmes 2 (2022): ultrapassou a marca de 72 milhões de visualizações nas quatro primeiras semanas após a estreia, transformando a personagem em uma das faces mais lucrativas do catálogo para o público adolescente.
- Donzela (2024): o ponto alto absoluto. O filme de fantasia sombria com direção de Juan Carlos Fresnadillo entrou para o Top 10 histórico da Netflix ao registrar 138 milhões de visualizações em 91 dias — uma marca que poucos títulos originais conseguem alcançar.
Foi exatamente esse histórico que levou a Netflix a oferecer a Brown, ainda em 2021, um contrato de produção que segundo a imprensa internacional beirava os 20 milhões de dólares por projeto, incluindo a criação de uma produtora própria (PCMA Productions) para desenvolver novos conteúdos. Em troca, a empresa garantia exclusividade — algo raro no mercado audiovisual, mas que parecia justificado pelos números.
Enola Holmes 3: o sinal de alerta que a Netflix não pode ignorar
O terceiro filme da franquia trouxe de volta a fórmula que parecia infalível: protagonista feminina forte, aventura de época, elenco de apoio sólido e uma campanha de marketing que ocupou as principais timelines de redes sociais durante semanas. Mesmo assim, os números não corresponderam às expectativas. Segundo o portal Adorocinema.com, embora o longa tenha liderado o ranking semanal de visualizações da Netflix na estreia, o total acumulado ficou bem aquém do que a edição anterior havia atingido, considerando o mesmo período de comparação.
Comparativo direto: quanto cada Enola Holmes rendeu para a Netflix
Para entender a dimensão desse "fracasso relativo", vale colocar os dados lado a lado. Os números a seguir consideram visualizações nas primeiras quatro semanas de disponibilidade na plataforma, métrica utilizada internamente pela Netflix para definir o sucesso de uma produção:
- Enola Holmes (2020): cerca de 76 milhões de visualizações — ajudou a estabelecer a atriz como protagonista.
- Enola Holmes 2 (2022): acima de 72 milhões de visualizações — confirmou a viabilidade da franquia.
- Enola Holmes 3 (2025): número atual abaixo de 50 milhões de visualizações no mesmo recorte, mesmo com um impulso de marketing superior ao dos filmes anteriores.
Esse decréscimo de quase 30% em relação à edição anterior é o que os executivos da Netflix chamam informalmente de "esfriamento de propriedade intelectual": quando um título não consegue mais gerar o buzz necessário para alimentar a sua própria sequência. Em outras palavras, o público não está mais considerando a franquia um evento imperdível.
The Electric State: a luva de veludo que antecedeu o soco de ferro
Antes mesmo de Enola Holmes 3, a Netflix já havia recebido um alerta claro sobre o risco de apostar demais em uma única atriz. The Electric State, lançado em 2025, foi descrito como o filme mais caro já produzido pela plataforma, com orçamento estimado em 320 milhões de dólares — quase o dobro de blockbusters consagrados como Avatar de James Cameron quando corrigido pela inflação.
O que a crítia técnica aponta sobre o fracasso
Apesar de ter no elenco nomes como Millie Bobby Brown, Chris Pratt e direção dos irmãos Russo (responsáveis por Vingadores: Ultimato, o maior filme de super-heróis da história), o longa se transformou em um dos maiores fracassos recentes da Netflix. O custo de produção, somado à necessidade de recuperar o investimento em marketing e distribuição, transformou o projeto em um prejuízo contábil de centenas de milhões de dólares. Para analistas do setor ouvidos por veículos especializados, três fatores explicam o resultado:
- Estética saturada: a estética neon retrofuturista havia sido explorada exaustivamente em outras produções nos últimos anos, gerando fadiga visual.
- Falta de identidade emocional: diferente de Stranger Things ou Enola Holmes, o roteiro não oferecia um vínculo afetivo forte com os personagens, prejudicando o boca a boca.
- Esgotamento do público-alvo: o público adolescente e jovem adulto, principal base de Millie Bobby Brown, já havia absorvido esse tipo de narrativa em outras plataformas.
O sistema de estrelas da Netflix está chegando ao fim?
O caso de Millie Bobby Brown é emblemático, mas não é único. Nos últimos anos, a Netflix apostou em contratos de exclusividade com nomes como Adam Sandler, Ryan Reynolds, Halle Berry, Idris Elba e até Brad Pitt, oferecendo valores milionários em troca de múltiplos projetos. A lógica era simples: nomes consagrados reduziam o risco financeiro, garantiam visibilidade midiática e criavam uma identidade de marca para o catálogo.
Por que esse modelo começou a falhar
Quatro mudanças estruturais na indústria explicam por que a estratégia das "estrelas-âncora" está perdendo eficácia:
- Fragmentação da audiência: com Disney+, Max, Prime Video, Apple TV+ e Paramount+ disputando atenção, o público está menos fiel a um único serviço.
- Fadiga de franquias: o espectador já viu o suficiente de heróis, aventuras de época e fantasia medieval para distinguir o que merece ser assistido.
- Queda na diferenciação por elenco: hoje, o que sustenta um filme não é mais o nome dos atores, mas a força da história e o impacto cultural nas redes sociais.
- Custo de oportunidade: pagar 20 milhões por projeto para uma única estrela reduz drasticamente o orçamento disponível para roteiristas, diretores e marketing — recursos que poderiam salvar projetos medianos.
Para a Netflix, o grande ensinamento que o caso Brown deixa é que estrelas não movem mais o ponteiro sozinhas. Uma atriz pode levar 138 milhões de pessoas a um filme como Donzela e, dois anos depois, não conseguir metade disso para uma sequência com maior investimento de marketing.
O que está em jogo para o futuro da carreira de Millie Bobby Brown
Mesmo com a desaceleração dos números, é improvável que a Netflix corte abruptamente o relacionamento com a atriz. Dois pontos sustentam essa leitura:
- Valor de portfólio: a produtora PCMA Productions já desenvolve novos títulos como A Time Loose, que continuam agregando diversidade ao catálogo.
- Reconhecimento de marca: Brown ainda é uma das poucas atrizes jovens com reconhecimento global testado por métricas de busca, redes sociais e vendas de licenciamento.
Por outro lado, a tendência é que os próximos contratos sejam mais baratos, mais curtos e menos exclusivos. A Netflix tenderá a co-produzir com estúdios tradicionais (como aconteceu com Enola Holmes, originalmente da Legendary) dividindo riscos, ao invés de bancar sozinha títulos de orçamento estratosférico.
Projeções futuras: o que esperar da próxima fase do streaming
Analistas do mercado audiovisual projetam que, até 2027, veremos três grandes mudanças estruturais nas estratégias das plataformas de streaming:
- Fim dos contratos de exclusividade de longo prazo: as plataformas preferirão contratos por projeto, com bônus de desempenho atrelados ao número de visualizações.
- Volta dos estúdios tradicionais: nomes como Warner, Universal e Sony devem reassumir o protagonismo na produção de blockbusters, com as plataformas atuando mais como distribuidoras.
- Estrelas multifacetadas: atrizes e atores que também produzem, dirigem ou criam conteúdo próprio serão mais valorizados do que estrelas que dependem exclusivamente de papéis em roteiros de terceiros.
Para Millie Bobby Brown, o caminho mais estratégico passa exatamente por essa última tendência: a atriz já demonstrou interesse em dirigir e vem expandindo seu portfólio de produção. Essa diversificação pode ser a chave para recuperar a relevância quando os números de suas próximas atuações voltarem a ser avaliados pelo mercado.
Perguntas frequentes
1. Enola Holmes 3 realmente fracassou ou só teve números menores do que o esperado?
Mais do que um fracasso absoluto, trata-se de um fracasso relativo. O filme liderou o ranking semanal da Netflix em sua estreia, mas ficou muito abaixo dos 72 milhões de visualizações atingidos por Enola Holmes 2 no mesmo período. Para os executivos da plataforma, a queda é considerada um alerta importante, já que sugere esgotamento de interesse do público pela franquia.
2. Millie Bobby Brown vai deixar a Netflix?
Não há indicação de ruptura iminente. A atriz tem contrato de produção vigente e sua empresa PCMA Productions desenvolve novos projetos para a plataforma. O que é provável é uma renegociação dos termos, com redução de valores por projeto e maior compartilhamento de custos com outros estúdios.
3. The Electric State é realmente o filme mais caro já feito pela Netflix?
Sim. Com orçamento estimado em 320 milhões de dólares, o longa supera com folga outros títulos de alto custo da plataforma, como Cavaleiro da Lua e Guerra nas Estrelas: Ahsoka. O valor inclui produção, pós-produção e marketing, e transformou o título em um dos maiores investimentos da história recente do streaming.
4. Por que os números do streaming caíram mesmo com mais assinantes?
Embora o número absoluto de assinantes da Netflix tenha crescido, a participação de cada título no tempo total de tela caiu. Isso acontece porque o catálogo cresceu exponencialmente, fazendo com que o público se distribua entre milhares de opções. A consequência é que, para entrar no Top 10, um título precisa performar muito melhor do que há cinco anos.
5. Qual é o futuro das franquias originais da Netflix?
O streaming passará a apostar em franquias compartilhadas, derivados e universos expandidos, no lugar de trilogias lineares. A ideia é manter o público engajado por meio de múltiplos pontos de entrada, em vez de depender exclusivamente da força de um único personagem.
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