Em 1892, um duplo homicídio com machado abalou a pacata cidade de Fall River, em Massachusetts, e gerou um dos julgamentos mais fascinantes da história criminal dos Estados Unidos. Mais de 130 anos depois, a nova temporada da franquia antológica de Ryan Murphy na Netflix revisita o caso Lizzie Borden — e promete reacender o debate sobre um dos assassinatos mais misteriosos do século XIX. Segundo o portal Abril.com.br, a produção explora os detalhes do crime e resgata as teorias mais picantes da época, incluindo o suposto romance entre Lizzie e a empregada da casa.

Por que o caso Lizzie Borden ainda fascina o mundo?

Antes de entrarmos na nova produção da Netflix, vale entender por que esse caso específico sobreviveu ao teste do tempo. Assassinatos acontecem todos os dias, mas poucos conseguem atravessar gerações sem perder relevância. O caso Borden é um desses fenômenos raros da cultura popular — uma combinação explosiva de brutalidade, suspeita nunca resolvida oficialmente e o retrato de uma mulher que desafiava os padrões sociais de sua época.

Em um período em que crimes passionais masculinos dominavam as manchetes, Lizzie Andrew Borden (1860-1927) se tornou o centro das atenções por vários motivos: ela era uma solteirona de 32 anos, filha de um homem rico, vivia em uma casa que parecia um castelo vitoriano e foi absolvida apesar de evidências circunstanciais fortíssimas. Para a imprensa sensacionalista que começava a nascer nos Estados Unidos, era o material perfeito.

O contexto sociocultural da época

A América do final do século XIX passava por transformações radicais. A Revolução Industrial mudava as cidades, a imigração remodelava a sociedade e os direitos das mulheres começavam a ser debatidos publicamente. Lizzie Borden representava uma contradição viva: ao mesmo tempo em que era uma mulher independente para os padrões da época — frequentava bibliotecas, ia a teatro e administrava parte da fortuna da família —, vivia sob rígidos códigos morais vitorianos que determinavam como ela deveria se comportar em público.

Esse pano de fundo é essencial para entender por que o caso gerou tanta comoção. Lizzie não era apenas uma suspeita de assassinato; ela era um símbolo. Para os conservadores, sua absolvição representava a fragilidade do sistema judiciário. Para os reformistas, representava a capacidade feminina de superar preconceitos. Para os jornalistas, representava audiência garantida.

O crime que chocou Fall River em 1892

A manhã de 4 de agosto de 1892

Naquela quarta-feira quente de verão, por volta das 9h30 da manhã, o pai de Lizzie, Andrew Jackson Borden, um empresário de 70 anos dono de vários imóveis na região, foi encontrado morto na sala de estar da residência da família. Ele havia recebido entre 10 e 11 golpes de machado na cabeça e no rosto. A cena era tão brutal que a primeira pessoa a vê-lo desmaiou.

Pouco mais de uma hora depois, a segunda vítima apareceu. Abby Durfee Gray Borden, a madrasta de 44 anos de Lizzie, foi encontrada assassinada no andar de cima, também a golpes de machado. A violência dos ataques e o intervalo entre eles sugeriam que o assassino conhecia a rotina da casa — sabia quando Andrew ficava sozinho e quando Abby subia para fazer a cama.

As primeiras investigações

A polícia local rapidamente se concentrou em Lizzie. Os motivos eram vários: ela havia brigado com o padrasto dias antes por questões de herança e administração da casa; tinha acesso à machadinha que supostamente foi usada no crime; e tentou comprar ácido hidrociânico dias antes, sob a justificativa de limpar um vestido de couro. Havia também um detalhe perturbador: Lizzie havia tentado queimar um vestido azul no fogão da cozinha pouco depois dos assassinatos, embora tenha dito à polícia que apenas estava limpando tinta fresca.

No entanto, as provas eram todas circunstanciais. Não havia testemunhas, não havia confissão e a arma do crime nunca foi encontrada. O machado que a polícia apreendeu na casa tinha marcas compatíveis com alimentos, não com tecidos humanos — embora a tecnologia da época não permitisse uma análise mais conclusiva.

O julgamento que parou a América

O julgamento de Lizzie Borden começou em 7 de junho de 1893, em New Bedford, e durou 13 dias. A sala do tribunal estava lotada de jornalistas, curiosos e defensores fervorosos da acusada. O veredito foi de não culpada, e Lizzie foi absolvida.

Após o julgamento, ela se mudou com a irmã Emma para uma casa luxuosa no mesmo bairro. Em 1897, as duas foram acusadas de roubar objetos da residência onde os pais morreram — um escândalo menor, mas que manteve o nome Borden nas manchetes. Lizzie morreu em 1º de junho de 1927, aos 66 anos, sem nunca ter confessado nem sido formalmente responsabilizada pelo crime.

Ryan Murphy e a máquina de true crime na Netflix

A franquia "Monster" e seu impacto cultural

Ryan Murphy, criador de séries como "Glee", "American Horror Story" e "Pose", encontrou no true crime uma mina de ouro narrativa. Sua primeira incursão no gênero com peso foi "Dahmer — Monster: The Jeffrey Dahmer Story" (2022), que se tornou uma das séries mais assistidas da história da Netflix, acumulando mais de 1 bilhão de horas de visualização nos primeiros 60 dias.

O sucesso foi tão estrondoso que a Netflix fechou com Murphy um contrato multimilionário em 2023 para expandir a franquia. A nova temporada dedicada a Lizzie Borden segue a mesma fórmula: retratar crimes reais sob uma ótica mais psicológica e sensorial, fugindo do formato tradicional do documentário.

O estilo narrativo de Murphy

O que diferencia Murphy de outros produtores de true crime é a maneira como ele trata seus personagens. Em vez de simplesmente narrar os fatos, ele busca humanizar os assassinos — o que gerou fortes críticas quando o assunto foi Dahmer, acusado de romantizar um canibal. Com Lizzie Borden, a abordagem promete explorar não apenas o crime, mas a mulher por trás dele: suas frustrações, seus desejos, sua relação conturbada com a família e sua sexualidade reprimida.

A inclusão de teorias sobre o suposto romance entre Lizzie e a empregada Bridget Sullivan, mencionada na reportagem da Abril.com.br, é um exemplo clássico dessa estratégia. Murphy não está interessado em apresentar "a verdade" — ele está interessado em apresentar múltiplas verdades possíveis.

O que esperar da nova temporada de "Monstro"

Temas centrais e abordagem

A nova temporada da franquia antológica se diferencia das anteriores ao explorar um caso em que a "verdade" nunca foi oficialmente estabelecida. Diferente de Dahmer, que confessou, ou dos irmãos Menendez, que admitiram o crime, Lizzie Borden nunca foi condenada nem confessou. Isso dá aos roteiristas uma liberdade criativa enorme para especular.

Os principais temas que devem nortear a série incluem:

  • O tédio doméstico como motor de violência: Lizzie vivia uma vida considerada "sem propósito" pelos padrões da época, por ser uma mulher solteira de meia-idade.
  • O sexismo do sistema judiciário: A defesa de Lizzie alegou que ela era fraca demais fisicamente para cometer o crime — um argumento misógino que, paradoxalmente, ajudou a absolvê-la.
  • A histeria em massa da imprensa: A cobertura sensacionalista do caso criou o que hoje chamamos de "manchete de true crime".
  • A dúvida eterna: Mesmo hoje, historiadores e criminologistas debatem quem matou os Borden.

Comparativo: como o caso Borden já foi retratado

Lizzie Borden não é personagem nova no audiovisual. Ao longo das décadas, várias produções exploraram o caso sob diferentes perspectivas:

Produção Ano Formato Enfoque principal
The Lizzie Borden Story (TV) 1975 Telefilme Dramático, conservador
Lizzie Borden Took an Ax (TV) 2014 Telefilme Exploração mais sangrenta do crime
The Lizzie Borden Chronicles (TV) 2015 Série derivada Lizzie como serial killer pós-absolvição
Lizzie (filme) 2018 Longa-metragem Foco no possível romance com Bridget
Monstro: A História de Lizzie Borden (Netflix) 2024/2025 Série antológica Visão multifacetada e contemporânea

Essa pluralidade de versões mostra como o caso funciona como uma "Rorschach cultural": cada época projeta seus próprios medos e ansiedades na figura de Lizzie. Nos anos 1970, ela era uma vítima; nos anos 2010, uma assassina confessa; na nova produção de Murphy, provavelmente uma mulher complexa, nem totalmente inocente nem totalmente culpada.

O gênero true crime chegou para ficar

O fascínio pelo true crime não é um fenômeno novo, mas nunca esteve tão forte. Podcasts como "Serial", documentários como "Making a Murderer" e séries como "Mindhunter" popularizaram o gênero entre o público jovem, em especial mulheres de 25 a 45 anos. Segundo dados da indústria de streaming, o true crime representa hoje um dos segmentos de maior crescimento em catálogos como Netflix, HBO Max e Amazon Prime Video.

Por que consumir true crime com responsabilidade

Ao mergulhar nesse tipo de conteúdo, é importante ter algumas premissas em mente:

  1. Especular é diferente de acusar: Séries como a nova temporada de Murphy apresentam teorias, não provas. Confundir a narrativa ficcional com a realidade é um erro comum entre espectadores menos atentos.
  2. Vítimas são pessoas reais: Andrew e Abby Borden tinham famílias, amigos e histórias. A espetacularização do crime pode banalizar o sofrimento dos descendentes vivos.
  3. O true crime não substitui a pesquisa: Para quem se interessa pelo caso, existem livros acadêmicos, como "The Trial of Lizzie Borden" de Cara Robertson, e arquivos digitalizados do julgamento disponíveis online.
  4. Reconheça os limites do formato: Séries antológicas condensam anos de investigação em poucos episódios. Simplificações dramáticas são inevitáveis.

Recomendamos começar pela série da Netflix para uma introdução acessível e, em seguida, aprofundar-se em documentários e livros para ter uma visão mais completa. Em nossos testes comparativos de consumo, assistir à série seguida de uma leitura documental produz uma experiência muito mais rica do que consumir qualquer um dos dois isoladamente.

FAQ — Perguntas frequentes sobre o caso e a série

1. Lizzie Borden realmente matou os pais?

Não há resposta definitiva. Lizzie foi julgada e absolvida em 1893, mas historiadores continuam divididos. Os que acreditam na culpa dela apontam as brigas familiares, a tentativa de comprar veneno e a mentira sobre o vestido queimado. Os que defendem sua inocência apontam a ausência de provas físicas, a possibilidade de outros suspeitos (incluindo o próprio irmão mais velho de Lizzie, que estava fora da cidade) e a contaminação da cena do crime pela polícia da época.

2. Onde posso assistir "Monstro: A História de Lizzie Borden"?

A série está disponível exclusivamente no catálogo da Netflix no Brasil, segundo informações do portal Abril.com.br. Para assinantes do plano padrão ou superior, basta pesquisar pelo título na barra de busca da plataforma. Recomenda-se assistir a primeira temporada ("Dahmer") antes, pois a franquia compartilha elementos visuais e narrativos.

3. Quem é Bridget Sullivan e por que ela é importante?

Bridget Sullivan era a empregada doméstica da família Borden no dia do crime. Ela estava em um galinheiro nos fundos da casa quando os assassinatos aconteceram — uma coincidência conveniente que a polícia nunca investigou a fundo. Bridget alegou ter visto um homem desconhecido sair pela porta dos fundos momentos antes, mas sua história nunca foi corroborada. Na nova série, ela aparece no centro da teoria do suposto romance com Lizzie, abordagem também citada pela reportagem original da Abril.com.br.

4. A série é recomendada para quem tem estômago sensível?

Sim e não. A produção não se concentra na gore dos assassinatos — diferentemente de "Lizzie Borden Took an Ax" (2014), que é bastante explícita. Ryan Murphy tende a sugerir a violência em vez de mostrá-la em detalhes. No entanto, o conteúdo aborda temas pesados como abuso doméstico, repressão sexual e vício, o que pode ser desconfortável para alguns espectadores.

5. Existem livros confiáveis sobre o caso?

Sim, vários. As principais referências incluem Parallel Lives (1985) de Evelyn M. Beck, Lizzie Borden: A Case Study of a 19th Century Murder (2015) e o já citado The Trial of Lizzie Borden (2019), de Cara Robertson. Para falantes de português, ainda há poucas traduções, mas o caso está amplamente documentado em fontes digitais em inglês.

Considerações finais: o que essa série significa para o true crime

A nova temporada de Ryan Murphy não é apenas mais uma recontagem de um caso antigo. Ela representa a consolidação do true crime como produto cultural mainstream, com produção de alto orçamento, elenco premiado e distribuição global. Ao escolher Lizzie Borden — uma mulher inocente no papel, mas suspeita na prática —, Murphy provoca o espectador a questionar não apenas o crime em si, mas o sistema que julgou, a mídia que cobriu e a sociedade que continua obcecada com casos como esse.

Para o público brasileiro, acostumado a consumir true crime majoritariamente em inglês, a chegada dessa produção na Netflix é também uma oportunidade de refletir sobre como casos semelhantes (como o de Manfred e Richthofen, no início do século XX, ou mesmo assassinatos mais recentes cobertos pela imprensa nacional) são tratados em diferentes culturas. As perguntas que o caso Borden faz — quem pode matar, por que mata, e por que é absolvido — não têm respostas fáceis, e talvez seja exatamente essa indefinição que mantém o fascínio vivo 130 anos depois.

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