Mas este evento carrega um peso simbólico ainda maior. Pela primeira vez desde 2011, um rosto diferente de Tim Cook sobe ao palco para apresentar um produto Apple ao mundo. John Ternus, ex-chefe de engenharia de hardware, assume o comando e precisa provar, logo de cara, que a era pós-Cook não será uma era de estagnação. E o escolhido para esse teste de fogo? Nada menos que um iPhone dobrável, um produto que os concorrentes já dominam há anos, mas que a Apple insistia em não lançar — até agora.
Se você é daqueles que acompanha o universo da mobilidade com atenção, mas ainda tem dúvidas sobre o que está em jogo, por que esse lançamento importa e o que esperar dele nos próximos meses, este guia foi feito para você. Vamos destrinchar cada camada dessa história.
Por que a queda das ações da Apple importa — mesmo para quem não investe
Antes de mergulhar no produto em si, vale entender por que um movimento aparentemente modesto no preço das ações (1,1% de queda, levando o papel para US$ 312,65) é relevante. O mercado acionário costuma ser um termômetro de expectativas, e quando uma empresa do porte da Apple apresenta volatilidade antes de um evento de grande repercussão, isso significa que há risco percebido embutido no anúncio.
O que o mercado está precificando
Investidores institucionais — fundos, gestoras, bancos de investimento — não apostam apenas no produto, mas na narrativa. E a narrativa em torno do primeiro iPhone dobrável carrega três riscos principais:
- Risco de execução técnica: a Apple está chegando tarde a um mercado onde Samsung, Huawei e Google já acumulam anos de (iterativas) melhorias. Erros de primeira geração podem custar caro em reputação.
- Risco de preço: a expectativa é de que o aparelho tenha um preço "elevado", o que naturalmente limita o volume de vendas iniciais.
- Risco de aceitação cultural: o iPhone sempre ditou tendências. Entrar como "seguidor" em uma categoria que ele próprio não inventou é uma mudança de papéis rara para a empresa.
Por isso, mesmo que você não tenha uma única ação da Apple em carteira, entender esse contexto ajuda a compreender para onde caminha a indústria de smartphones como um todo.
A linha do tempo do smartphone dobrável: como chegamos até aqui
Para entender por que esse lançamento da Apple é tão significativo, é fundamental olhar para trás e compreender a evolução dos celulares dobráveis. O mercado não nasceu ontem.
2018: o marco zero que quase ninguém lembra
O primeiro smartphone dobrável da história não foi da Samsung, nem da Huawei, e tampouco do Google. Foi da Royole, uma fabricante chinesa especializada em telas flexíveis, que apresentou o FlexPai ainda em 2018. O aparelho era grosso, o software tinha bugs visíveis e a dobra na tela era quase grotesca — mas mostrou ao mundo que o conceito era viável.
2019: a Samsung assume a dianteira
Meses depois, a Samsung lançou o Galaxy Fold, o primeiro dobrável de uma grande marca global. O modelo inicial teve problemas sérios: unidades de review apresentaram defeitos na tela após poucos dias de uso, e a Samsung precisou adiar o lançamento em meses para reforçar a estrutura. Mas a mensagem estava dada: o futuro dos smartphones seria (também) dobrável.
2020-2023: a fase de amadurecimento
Foi nesse período que a categoria começou a amadurecer. A Samsung lançou o Z Flip e o Z Fold em suas sucessivas gerações, cada vez mais finos e resistentes. O Google entrou com o Pixel Fold em 2023, apostando em integração profunda com o Android. A Huawei, mesmo sob sanções, continuou lançando o Mate X com hardware de ponta, especialmente no mercado chinês.
2025: a Apple finalmente responde
Seis anos após o primeiro Galaxy Fold, a Apple finalmente anuncia seu primeiro dobrável. Esse atraso incomum para os padrões da empresa não é coincidência: a Apple historicamente espera que uma categoria amadureça antes de entrar nela, refinando o conceito em vez de ser pioneira. Foi assim com o MP3 player (após o iPod), com o tablet (após o iPad) e, em certa medida, com os próprios smartphones (apesar de o iPhone ter reinventado a categoria).
O que se sabe (e o que se especula) sobre o iPhone dobrável
Mesmo com a Apple mantendo seu tradicional sigilo pré-lançamento, uma série de vazamentos, patentes registradas e relatórios de (cadeia de suprimentos) já permitem traçar um retrato bastante detalhado do produto.
Design e formato esperados
Ao contrário da Samsung, que apostou em dois formatos distintos (Fold, estilo livro, e Flip, estilo compacto), tudo indica que a Apple optará por um único formato principal, próximo ao "estilo livro", com a tela se abrindo para revelar um display interno de aproximadamente 7,8 polegadas. Fechado, o aparelho funcionaria como um iPhone tradicional com tela externa de cerca de 5,5 polegadas.
Mecanismo de dobra: a obsessão da Apple com detalhes
Quem já teve um dobrável de primeira geração sabe: o vinco central na tela (conhecido tecnicamente como crease) é o calcanhar de Aquiles desses aparelhos. As patentes mais recentes da Apple sugerem que a empresa passou anos tentando minimizar esse efeito, possivelmente com uma nova liga metálica para a dobradiça e um sistema de micro-dobradiças que distribui melhor a tensão na tela.
Na prática, ao comparar com os modelos atuais da Samsung, espera-se que:
- O vinco central seja significativamente menos visível que nos Galaxy Z Fold atuais.
- A durabilidade da dobradiça seja superior a 200 mil ciclos de abertura e fechamento.
- A tela utilize vidro ultrafino (UTG) com camada protetora proprietária da Apple.
Sistema operacional: iOS adaptado ou um novo iOS?
Esta é uma das grandes dúvidas em torno do produto. O iOS, em sua forma atual, foi projetado para telas únicas. Para um aparelho dobrável com dois estados bem distintos (aberto e fechado), a Apple precisaria fazer uma das seguintes escolhas:
- Adaptar o iOS atual com suporte a múltiplas janelas e transição suave entre estados, similar ao que o Android fez.
- Criar um fork do iOS, uma versão otimizada para telas maiores, possivelmente inspirada no iPadOS.
- Desenvolver uma experiência híbrida que se adapte automaticamente ao formato em uso.
Analistas de mercado apostam que a Apple seguirá o terceiro caminho, mas veremos o que Ternus e sua equipe revelarão no palco.
John Ternus: o homem que assumiu o lugar mais difícil da tecnologia
Não é exagero dizer que John Ternus herdou uma das posições mais cobiçadas e, ao mesmo tempo, mais ingratas do mundo corporativo. Suceder Tim Cook não é tarefa simples: Cook assumiu uma Apple em crise pós-Steve Jobs e a transformou na empresa mais valiosa do planeta, com uma máquina de geração de caixa praticamente inigualável.
O perfil do novo CEO
Ternus é um engenheiro de formação, com passagens pela NASA antes de entrar na Apple. Dentro da empresa, comandou a divisão de engenharia de hardware e era considerado o arquiteto de produtos como o MacBook Pro com chip M-series e o iPad Pro. Sua nomeação sinaliza uma volta da Apple ao DNA de engenharia pura, algo que pode ser especialmente relevante em um lançamento tecnicamente desafiador como um dobrável.
Os desafios imediatos de Ternus
Logo de cara, o novo presidente-executivo precisa lidar com pelo menos três frentes:
- Entregar um dobrável à altura da marca Apple, sem os percalços que marcaram as primeiras gerações dos concorrentes.
- Justificar o preço premium que será cobrado, especialmente em um mercado que já tem opções maduras e mais baratas.
- Comunicar a estratégia de adiamento do iPhone 18 de entrada para a primavera de 2027 no Hemisfério Norte, segundo a Bank of America Securities, sem desagradar a base de consumidores mais sensíveis a preço.
Comparativo prático: como o dobrável da Apple deve se posicionar frente aos concorrentes
Para ajudar você a dimensionar o que vem por aí, fizemos um comparativo entre os principais dobráveis do mercado atual e o que se espera do produto da Apple. Vale lembrar que os dados da Apple são baseados em rumores e patentes, portanto sujeitos a ajustes.
Tabela comparativa (dados projetados)
- Samsung Galaxy Z Fold 6: tela interna de 7,6", externa de 6,3", peso aproximado de 239g, vinco ainda visível, sistema operacional Android 14 com One UI 6.
- Google Pixel 9 Pro Fold: tela interna de 8", externa de 6,3", peso aproximado de 257g, integração profunda com IA do Google, Android 14.
- Huawei Mate X6: tela interna de 7,93", externa de 6,45", HarmonyOS próprio, sem acesso a apps do Google no mercado ocidental.
- Apple iPhone Fold (projetado): tela interna de ~7,8", externa de ~5,5", peso estimado em torno de 240-260g, iOS adaptado, possível integração avançada com Apple Intelligence.
Onde a Apple provavelmente se destacará
Mesmo chegando tarde, a Apple tem trunfos históricos em três frentes:
- Integração hardware-software: controlar todo o stack permite otimizações que concorrentes que dependem de Android não conseguem no mesmo nível.
- Chip dedicado: rumores indicam um processador da família A19 ou M-series otimizado especificamente para o dobrável, com ênfase em eficiência energética.
- Ecossistema: a transição de tarefas entre iPhone, iPad e Mac via Handoff e Universal Control pode ganhar uma nova dimensão com um dispositivo dobrável.
Onde os concorrentes ainda levam vantagem
Por outro lado, é importante ser honesto sobre as limitações:
- A Samsung tem seis anos de experiência com o formato e iterações anuais que permitiram refinar dobradiça, tela e software.
- O Google tem integração nativa com IA no nível do sistema operacional, algo que a Apple ainda está construindo com o Apple Intelligence.
- Ambos os concorrentes oferecem preços mais baixos que o que se espera da Apple.
Estratégia de preços e o adiamento do iPhone 18: o tabuleiro de xadrez da Apple
Um dos pontos mais interessantes levantados pela reportagem do InfoMoney é a expectativa de que a Apple adie atualizações dos iPhones tradicionais para suavizar o ciclo de vendas, evitando o pico típico do quarto trimestre e distribuindo melhor a receita ao longo do ano.
Como essa estratégia funciona na prática
Historicamente, a Apple concentra o grosso de suas receitas no último trimestre do ano, impulsionado pelas vendas de fim de ano e pela temporada de Natal. Esse modelo, embora lucrativo, gera uma série de problemas operacionais:
- Sazonalidade extrema na cadeia de suprimentos.
- Pressão sobre a logística nos meses de outubro a dezembro.
- Estoque acumulado nos trimestres seguintes.
Adiar os modelos de entrada do iPhone 18 para a primavera de 2027 no Hemisfério Norte seria uma tentativa de redistribuir esse ciclo, possivelmente abrindo espaço para o dobrável brilhar no quarto trimestre de 2025 e ao longo de 2026.
Os riscos da estratégia
Por outro lado, essa manobra pode desagradar consumidores que esperam o lançamento anual tradicional. A lealdade ao "ciclo do iPhone" é uma das características mais marcantes da base de fãs da marca, e mexer nela exige cuidado. Ternus e sua equipe precisarão comunicar muito bem os motivos desse adiamento para evitar backlash.
O impacto para o consumidor brasileiro
Se você está lendo este artigo do Brasil, vale uma reflexão específica. O mercado brasileiro tem algumas particularidades que tornam o lançamento de um iPhone dobrável ainda mais desafiador para a Apple:
- Câmbio desfavorável: com o dólar historicamente alto, um produto que nos Estados Unidos deve custar entre US$ 1.800 e US$ 2.500, facilmente chegaria aqui a valores entre R$ 10 mil e R$ 14 mil.
- Carga tributária: o sistema de impostos brasileiro sobre eletrônicos encarece ainda mais esses produtos.
- Mercado de usados e recondicionados: parte considerável do público consumidor brasileiro opta por modelos de gerações anteriores, o que pode ser uma alternativa mais acessível.
Se a Apple quiser realmente democratizar o acesso ao dobrável no Brasil, precisará considerar estratégias específicas para esse mercado, como já fez no passado com o iPhone "C" (a linha SE) e com opções de financiamento direto com varejistas.
FAQ: as perguntas mais comuns sobre o iPhone dobrável
Para fechar este guia com chave de ouro, reunimos as dúvidas mais frequentes que surgem em conversas sobre o assunto. Se você chegou até aqui, provavelmente também tem algumas delas.
1. Quando o iPhone dobrável será lançado oficialmente?
O evento de lançamento está marcado para acontecer nesta semana na sede da Apple em Cupertino, Califórnia. Segundo a reportagem original do InfoMoney, a expectativa é de que o produto chegue às lojas entre o final de 2025 e o início de 2026, seguindo o cronograma tradicional de lançamentos da empresa.
2. Quanto deve custar o iPhone dobrável?
Não há confirmação oficial, mas analistas e vazamentos indicam um preço inicial entre US$ 1.800 e US$ 2.500 nos Estados Unidos. No Brasil, considerando impostos e câmbio, o valor pode ultrapassar facilmente os R$ 12 mil, colocando-o entre os smartphones mais caros já vendidos oficialmente no país.
3. Vale a pena comprar o primeiro iPhone dobrável ou é melhor esperar?
A recomendação geral para qualquer primeira geração de um produto complexo como um smartphone dobrável é esperar pelo menos a segunda geração. Empresas costumam corrigir problemas estruturais identificados nos primeiros modelos. Como a Apple está chegando tarde ao segmento, a expectativa é de que o produto já tenha um nível de maturidade maior que os concorrentes de primeira geração, mas ainda assim vale considerar a possibilidade de esperar pelo sucessor.
4. O iPhone dobrável substituirá o iPad?
Provavelmente não, pelo menos não totalmente. O iPad continua sendo uma plataforma consolidada, com sistema operacional próprio (iPadOS) e otimizações específicas para produtividade. O dobrável da Apple deve ocupar um espaço intermediário, mais portátil que um tablet, mas mais versátil que um smartphone tradicional.
5. A Samsung e o Google devem se preocupar com a entrada da Apple?
Sim e não. Por um lado, a entrada da Apple costuma validar uma categoria inteira e atrair novos consumidores para ela, beneficiando também os concorrentes. Por outro, a Apple tem histórico de conquistar participação de mercado rapidamente quando decide entrar em um segmento — vide o próprio mercado de smartwatches com o Apple Watch. O mercado de dobráveis está prestes a ficar muito mais competitivo.
Considerações finais: o que esse momento significa para a indústria
Estamos diante de um daqueles raros momentos em que o mundo da tecnologia respira fundo antes de dar um salto. A entrada da Apple no mercado de smartphones dobráveis não é apenas o lançamento de mais um aparelho — é a validação institucional de uma categoria que até agora era vista por muitos como experimental.
Para consumidores, isso significa mais opções, mais inovação e, com sorte, preços mais competitivos à medida que o mercado amadurece. Para investidores, é um lembrete de que a Apple continua relevante e disposta a reinventar-se. Para os concorrentes, é um alerta de que a era do "iPhone apenas incremental" pode estar chegando ao fim.
O grande teste, claro, virá nas próximas semanas, quando os primeiros reviews independentes surgirem e o público terá a chance de colocar as mãos no produto. Até lá, o que podemos fazer é observar, analisar e nos preparar para mais uma revolução silenciosa na forma como nos relacionamos com a tecnologia que carregamos no bolso.
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