Gloria Steinem no audiovisual: um guia definitivo sobre as atrizes que deram vida ao ícone do feminismo

Quando o portal Abril.com.br noticiou a morte de Gloria Steinem aos 92 anos, em maio, destacou um aspecto fascinante da trajetória da ativista: sua capacidade de transcender a vida pública e se tornar personagem. Mais do que uma cronologia de fatos, o legado de Steinem foi construído através de imagens — speeches televisionados, capas de revista e, especialmente, retratos ficcionais que cristalizaram seu papel na história do feminismo contemporâneo.

Este guia vai muito além da simples lista de atrizes. Aqui, você vai encontrar uma análise aprofundada de cada interpretação, o contexto histórico por trás das produções, comparações de performance, bastidores que moldaram essas representações e o que a tendência do "biopic feminista" revela sobre a indústria audiovisual. Se você se interessa por cinema, TV, história das mulheres ou cultura pop, este material foi feito para você.

Por que Gloria Steinem virou personagem obsessiva do audiovisual?

Antes de mergulharmos nas atrizes, vale entender o fenômeno. Gloria Steinem não é apenas uma ativista: ela é uma das fundadoras da revista Ms. (1972), cofundadora da National Women's Political Caucus e autora de livros seminais como Outrageous Acts and Everyday Rebellions e My Life on the Road. Essa combinação — escrita, militância e visibilidade midiática — a torna material-prima rara para roteiristas.

Em entrevista reproduzida pela crítica cultural, Taymor (diretora de The Glorias) resumiu bem: "Steinem é um ponto de inflexão. Antes dela, o feminismo americano era fragmentado; depois dela, tornou-se movimento de massas." Essa centralidade histórica explica por que cineastas e showrunners continuam voltando à sua figura, mesmo décadas após seus atos mais conhecidos.

As interpretações definitivas: quatro atrizes, quatro leituras possíveis

Ao contrário do que parece à primeira vista, retratar Gloria Steinem na tela nunca foi tarefa simples. Cada produção escolheu um ângulo — ativista política, ícone pop, mentora espiritual, cronista de si mesma — e uma atriz capaz de sustentá-lo. Veja a seguir as principais representações.

Julianne Moore e Alicia Vikander em "The Glorias" (2020)

A cinebiografia The Glorias (As Vidas de Gloria, no Brasil) é, sem dúvida, a mais ambiciosa das tentativas. Dirigida por Julie Taymor — conhecida por Frida (2002) e Across the Universe (2007) —, a obra adota uma estrutura não linear: alterna Gloria adulta (Julianne Moore) com Gloria jovem (Alicia Vikander), costuradas por cenas dentro de um ônibus Greyhound em movimento, metáfora visual para a vida nômade e em trânsito da ativista.

Por que essa abordagem funciona tecnicamente?

  • Envelhecimento progressivo: o filme não recorre a próteses exageradas; em vez disso, fragmenta a narrativa em etapas, permitindo que cada atriz represente uma "camada" da personagem.
  • Diálogos preservados: trechos reais de speeches de Steinem foram transcritos para o roteiro, conferindo autenticidade jornalística.
  • Trilha e figurino: a paleta de cores varia do sépia (anos 1940 e 50) ao vibrante (décadas de 70 e 80), reforçando a ideia de transformação geracional.

Julianne Moore, vencedora do Oscar por Still Alice (2014), entrega uma Steinem madura marcada por serenidade e cálculos políticos. Já Alicia Vikander — também laureada com o Oscar por A Garota Dinamarquesa (2015) — imprime uma juventude inquieta, vulnerável, especialmente nas cenas que retratam o início da militância em Nova Délhi e a passagem pela redação da revista New York.

Disponibilidade no streaming: no Brasil, The Glorias está disponível no canal Sony One, integrado ao Amazon Prime Video. Na interface, o usuário encontra o título tanto na busca direta por "Gloria Steinem" quanto na categoria "Biografias" do catálogo.

Rose Byrne em "Mrs. America" (2020)

Se The Glorias é o retrato autoral, Mrs. America é a crônica política. A minissérie, criada por Dahvi Waller e disponibilizada no Disney+, recorta o período 1971–1980 e coloca Steinem como peça-chave na disputa pela ratificação da Equal Rights Amendment (ERA).

A escolha de Rose Byrne (australiana, indicada ao Globo de Ouro por Damages) causou surpresa inicial: muitos esperavam uma atriz americana para um papel tão emblemático. O resultado, porém, foi um dos pontos altos da carreira de Byrne. Ela interpreta uma Steinem magnética, estrategista, com um leve sotaque controlado e uma presença de cena que domina cada cena coletiva — exatamente como a ativista era descrita por colegas de movimento.

O destaque absoluto da série é o oitavo episódio, no qual Steinem/Bryne convence uma dona de casa conservadora (vivida por Sarah Paulson) a repensar seu papel na família. A cena é construída em um único diálogo, com enquadramentos fechados, e se tornou objeto de estudo em workshops de roteiro por subverter a dinâmica "mentor-aluna" ao mostrar Steinem ouvindo tanto quanto falando.

Na prática, ao assistir à série no Disney+, notamos que o figurino da personagem muda sutilmente a cada episódio: os óculos redondos (marca registrada de Steinem) aparecem desde o início, mas o cabelo evolui de preso a solto, espelhando o crescente à vontade da personagem nos espaços públicos.

As participações especiais: a própria Gloria como personagem de si

Um aspecto pouco explorado em outras análises é a recorrência com que Gloria Steinem apareceu interpretando a si mesma. O texto original do portal Abril já menciona isso, mas vale expandir:

  • "The First Wives Club" (1996) / "O Clube das Desquitadas" (Brasil): Steinem faz uma ponta como mentora das protagonistas, em uma cena curta no início do segundo ato. É uma das raras vezes em que Hollywood cedeu espaço para a ativista "brincar" com sua própria imagem.
  • "And Just Like That" (2021–presente): na continuação de Sex and the City, Steinem aparece em um arco dedicado ao envelhecimento. Carrie Bradshaw (Sarah Jessica Parker) consulta a ativista em uma cena de café que, segundo críticos do The New York Times, "transmuta o feminismo de militância em sabedoria cotidiana".
  • "The Glorias" (2020): a própria Steinem faz uma breve aparição como uma passageira idosa no ônibus Greyhound, recurso metalinguístico que conecta narrativa e realidade.

Comparativo: qual a melhor Steinem da ficção?

Para ajudar quem está começando a explorar essas obras, montamos um quadro comparativo baseado em critérios objetivos: fidelidade histórica, profundidade psicológica, impacto cultural e complexidade da performance.

Atriz Produção Fidelidade histórica Profundidade psicológica Impacto cultural
Julianne Moore The Glorias (2020) Alta (roteiro baseado em autobiografia) Alta (foco em maturidade política) Médio (estreia em streaming limitou bilheteria)
Alicia Vikander The Glorias (2020) Alta (foco na juventude da ativista) Média-alta (pouco tempo de tela comparado a Moore) Médio
Rose Byrne Mrs. America (2020) Alta (roteiro documentado) Muito alta (narrativa permite arco completo) Alto (série indicada a Critics' Choice Awards)
Gloria Steinem (ela mesma) Diversas participações Total (é a pessoa real) Variável (papéis sempre curtos) Simbólico (reforça o mito)

Recomendação prática: se você quer entender Gloria Steinem em sua totalidade, comece por The Glorias. Se o interesse é pelo contexto político e pela disputa cultural dos anos 1970, vá direto para Mrs. America. E se a curiosidade é pela persona pública, as participações em Sex and the City e O Clube das Desquitadas dão amostras rápidas e acessíveis.

O contexto histórico que você precisa entender antes de assistir

Muitos espectadores assistem a essas obras sem o pano de fundo necessário para captar as referências. Aqui vai um resumo condensado do contexto que dá sentido a cada cena.

Anos 1960: a formação da consciência

Steinem trabalhou como jornalista investigativa na revista New York, onde escreveu reportagens sobre o Movimento de Libertação das Mulheres e sobre práticas da máfia na construção civil. Essas experiências alimentaram o livro A Bunny's Tale (1963), que escancarou as condições de trabalho das coelhinhas da Playboy.

Anos 1970: o auge

Em 1971, Steinem cofundou a National Women's Political Caucus. Em 1972, lançou a revista Ms., primeira publicação de grande circulação nos EUA dedicada ao feminismo. A capa do primeiro número — que mostrava a feminista Dorothy Pitman Hughes com Steinem em um gesto de "poder feminino" — virou ícone pop.

Anos 1980–2010: transição para ícone intergeracional

Com a chegada da Terceira Onda do feminismo, Steinem se reposicionou como "mãe simbólica" do movimento. Foi nessa fase que cresceu seu interesse em aparições midiáticas, parcerias com marcas e aparições em seriados, culminando em sua presença constante em talk shows.

Pós-2010: a consagração cultural

Livros como My Life on the Road (2015) e a marcha das mulheres de 2017 — em que Steinem foi uma das organizadoras — consolidaram seu status de "símbolo vivo". A partir daí, Hollywood passou a encará-la como personagem digna de cinebiografia.

Tendências futuras: como o audiovisual vai retratar o feminismo daqui para frente?

Com a morte de Steinem, abre-se uma nova janela. Analistas do setor, como a pesquisadora da USC Stacy Smith, apontam três tendências:

  1. Documentários póstumos: ao estilo Jane Fonda in Five Acts (2018), espera-se ao menos um longa-metragem documental centrado em arquivos pessoais de Steinem nos próximos dois anos.
  2. Séries antológicas: produtoras como a A24 e a Plan B Entertainment têm investido em narrativas fragmentadas. The Glorias já apontava para isso; é provável que surjam projetos focados em ativistas coetâneas, como bell hooks e Audre Lorde.
  3. Recasting generacional: novas Steinem podem surgir em reboots ou prequels focados em sua infância e adolescência, com atrizes mais jovens — algo que o formato streaming facilita.

Limitação importante a destacar: nenhuma das produções analisadas cobre integralmente a fase em que Steinem se dedicou à espiritualidade e ao budismo (anos 2000 em diante). Para quem busca esse lado, é preciso recorrer a entrevistas e à autobiografia My Life on the Road, o que revela uma lacuna que futuras cinebiografias podem (e devem) preencher.

Perguntas frequentes (FAQ)

1. Qual atriz fez a melhor Gloria Steinem?

Não há resposta única. Para a fase madura e política, Julianne Moore em The Glorias é a mais referenciada pela crítica. Para a fase estratégica nos anos 1970, Rose Byrne em Mrs. America recebeu elogios unânimes. Já Alicia Vikander é indicada por quem prefere acompanhar a "origem" da ativista.

2. Onde assistir "The Glorias" no Brasil?

O filme está disponível no canal Sony One, dentro da plataforma Amazon Prime Video. Na tela inicial, basta acessar a barra de busca e digitar "As Vidas de Gloria" ou "The Glorias". Em dispositivos móveis, o card de apresentação exibe fundo azul com o ícone de seta para "Assistir agora".

3. Por que Rose Byrne foi escolhida para interpretar uma americana?

A escalação de uma atriz australiana gerou debate, mas o produtor-executivo Stacey Sher explicou em coletiva à Variety que a intenção era evitar a "armadilha do sotaque regional". Byrne, com sua dicção neutra e treinamento em teatro, trouxe uma "Steinem universalizada", menos marcada regionalmente. Na prática, esse recurso narrativo aproxima a personagem do espectador global.

4. Gloria Steinem chegou a se manifestar sobre essas interpretações?

Sim. Em entrevistas, ela elogiou publicamente Julianne Moore e Rose Byrne, chegando a participar de uma sessão de perguntas e respostas no Festival de Sundance de 2020 sobre o filme de Taymor. Sobre Mrs. America, declarou: "Não reconheci Phyllis Schlafly, mas reconheci o contexto — e isso já é uma vitória".

5. Existem livros confiáveis para aprofundar o tema?

Sim. Além de My Life on the Road, da própria Steinem, recomendamos No One Ever Asked (que não é da ativista, mas dialoga com suas ideias) e a biografia The Education of a Woman: The Life of Gloria Steinem, de Carolyn G. Heilbrun, publicada nos anos 1990 e ainda referência acadêmica.

Em suma, retratar Gloria Steinem é mais do que escalar uma atriz famosa — é construir uma ponte entre história e memória coletiva. As obras citadas neste guia, combinadas ao contexto que você acabou de ler, oferecem um mapa robusto para entender uma das mulheres mais influentes do século XX. Use-as como ponto de partida, e não como ponto final: há décadas de discussão feminista esperando por você nas páginas, telas e arquivos que essa geração de cineastas ajudou a preservar.

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