Quando o Google decidiu transformar suas ferramentas de inteligência artificial em um verdadeiro companheiro de estudos para candidatos a grandes vestibulares e provas internacionais, a notícia reverberou de formas diferentes em cada país. No Brasil, o movimento ganhou um sabor especial: o Enem — exame que define o ingresso de milhões de estudantes em universidades públicas, programas de bolsas e financiamentos estudantis — passou a integrar a estratégia global da gigante de Mountain View. E mais do que isso: uma edtech nacional ajudou a construir parte dessa experiência.

Este guia vai além do anúncio. Reunimos contexto histórico, instruções práticas de uso, comparativos com métodos tradicionais e plataformas concorrentes, além de uma análise honesta das limitações. Ao final, você terá clareza sobre o que essa novidade realmente entrega, o que ainda deixa a desejar e como tirar o melhor proveito dela — seja você um vestibulando de última hora ou um professor em busca de recursos para a sala de aula.

O que o Google anunciou, de fato, e por que isso importa

Segundo o portal Eurisko.com.br, o Google expandiu o conjunto de testes práticos disponíveis em seus produtos de IA e incluiu o Enem entre nove avaliações contempladas. O recurso havia sido originalmente desenhado para atender candidatos de provas como SAT, GRE, LSAT e MCAT, mas agora ganhou uma camada adicional pensada para mercados específicos — e o Brasil está dentro dela.

Para entender o impacto real, vale contextualizar o peso do Enem no país. Em 2023, mais de 3,9 milhões de inscritos participaram do exame, segundo dados do Inep. A nota obtida é aceita pelo Sistema de Seleção Unificada (Sisu), pelo Programa Universidade para Todos (ProUni) e pelo Fundo de Financiamento Estudantil (Fies). Em outras palavras, uma única prova tem o poder de redirecionar trajetórias profissionais inteiras. Qualquer ferramenta que prometa melhorar o desempenho nessa jornada toca em um ponto nevrálgico da educação brasileira.

Os três pilares do lançamento

A expansão se apoia em três frentes distintas que merecem ser entendidas separadamente:

  • Busca do Google com IA: ao digitar consultas como "simulado do Enem" ou "praticar para o SAT", o usuário pode encontrar um cartão interativo com questões geradas por IA e explicações em tempo real.
  • Gemini: o chatbot da empresa funciona como um tutor socrático, conduzindo o estudante por meio de perguntas abertas e adaptativas.
  • Modo IA: integrado ao buscador, apresenta respostas em formato conversacional com fontes citadas e sessões de prática aprofundadas.

A parceria brasileira: quem é a Akira Enem e por que ela foi escolhida

A Akira Enem é uma das quatro parceiras responsáveis pelo banco de questões usado nas experiências de preparação. Fundada como uma edtech especializada exclusivamente no exame brasileiro, a empresa construiu reputação justamente por entender as peculiaridades da prova: a redação dissertativo-argumentativa, a matriz de competências, o estilo de itens de Ciências da Natureza que mistura Física, Química e Biologia em um único enunciado.

Não é coincidência que o Google tenha buscado uma empresa nacional em vez de simplesmente traduzir o conteúdo americano. O Enem tem características únicas — como a prova de Linguagens, que cobra cinco idiomas e exige interpretação de charges, tirinhas e textos literários sem exigir memorização de listas gramaticais. Treinar uma IA generativa para reproduzir essa lógica exige curadoria humana especializada, e foi exatamente isso que a parceria trouxe.

O mercado de edtechs no Brasil e o papel da Akira

O ecossistema brasileiro de tecnologia educacional movimentou cerca de R$ 3,5 bilhões em 2023, de acordo com a Associação Brasileira de Startups. Empresas como Me Salva, Descomplica, Estudaqui e o próprio Curso Dominium competem por uma audiência que, segundo o Censo da Educação Superior, ultrapassa 8 milhões de matrículas em instituições privadas e públicas. A Akira Enem ocupa um nicho singular: foco exclusivo no Enem, o que permite profundidade técnica no conteúdo.

O detalhe que muita gente ignora: a diferença entre a versão em inglês e a brasileira

A notícia original destaca um ponto que costuma passar despercebido: o Google anunciou os novos testes práticos da Busca em inglês, voltados ao mercado global. Já a experiência específica do Enem foi implementada por uma via diferente, integrada diretamente ao Gemini e ao Modo IA.

Isso tem implicações práticas. Quem tentar acessar o simulado digitando apenas "Enem practice test" na Busca pode não encontrar o card interativo que esperava. O caminho mais seguro para o público brasileiro é abrir o Gemini (disponível em gemini.google.com ou pelo aplicativo oficial) e solicitar a prática explicitamente em português. Pequena diferença, grande impacto na experiência.

Como usar os testes práticos na prática: passo a passo visual

Descrevemos abaixo o fluxo completo para acessar o recurso, com foco em detalhes visuais que facilitam a vida de quem nunca utilizou essas ferramentas.

Método 1 — Pelo Gemini (caminho recomendado)

  1. Abra o aplicativo do Gemini ou acesse gemini.google.com. Você verá uma caixa de texto centralizada com o rótulo "Pergunte ao Gemini" e um campo branco amplo.
  2. No seletor de modelo, escolha a opção Gemini 2.0 Flash ou superior — as versões avançadas têm melhor desempenho em questões longas e interpretação de enunciados.
  3. Digite um comando como: "Quero fazer um simulado do Enem com 10 questões de Matemática e nível de dificuldade médio."
  4. Pressione Enter. Após alguns segundos, surgirá uma resposta com a primeira questão em formato de texto estruturado, com fundo claro e botão "Próxima questão" ao final.
  5. Responda digitando a alternativa (A, B, C, D ou E). O Gemini exibirá feedback imediato: acerto, comentário explicativo e a opção de "continuar" ou "pedir mais detalhes".
  6. Ao final das 10 questões, será apresentado um relatório resumido com percentual de acerto por área e links sugeridos para revisão.

Método 2 — Pela Busca do Google com Modo IA

  1. Em google.com, digite a consulta: "simulado do Enem Matemática ensino médio".
  2. Observe se aparece, no topo da página, um cartão com fundo claro e o selo do Modo IA (geralmente um ícone em formato de losango roxo).
  3. Toque em "Praticar" ou em um botão semelhante dentro desse cartão.
  4. O conteúdo será exibido em formato de conversa, com a primeira pergunta e um campo de resposta logo abaixo.
  5. Ao terminar, role a página para baixo: o sistema normalmente oferece um botão verde para "Gerar mais questões" e atalhos para mudar de disciplina.

Dicas de comandos para extrair mais do recurso

  • "Crie uma questão do Enem sobre Segunda Guerra Mundial com gabarito comentado."
  • "Simule uma redação do Enem sobre impacto da inteligência artificial na educação e avalie meus argumentos."
  • "Quais são os temas mais cobrados em Química no Enem nos últimos 5 anos? Gere uma questão nesse estilo."

Comparativo honesto: o simulado do Google vs. métodos tradicionais e concorrentes

Antes de embarcar na novidade, vale ponderar prós e contras em relação a alternativas consolidadas. Avaliamos quatro caminhos comuns ao vestibulando brasileiro.

Quadro comparativo

  • Simulado do Google (Gemini e Modo IA) — Prós: gratuito, disponível 24/7, personalização por nível e tema, explicações instantâneas. Contras: pode gerar conteúdo impreciso em perguntas muito específicas, ausência de correção estilística em redações longas, banco ainda em construção para Enem.
  • Plataformas dedicadas (Me Salva, Descomplica, Estudaqui) — Prós: conteúdo curado por professores, simulados cronometrados, correção de redação por IA treinada em critérios oficiais. Contras: exigem assinatura mensal (entre R$ 30 e R$ 90), foco em vestibulares tradicionais além do Enem.
  • Cursos presenciais / pré-vestibulares — Prós: interação humana, disciplina forçada, simulados com ambiente controlado. Contras: custo elevado (frequentemente acima de R$ 300 mensais), horários rígidos, deslocamento.
  • Estudo solo com materiais oficiais e provas anteriores — Prós: gratuito, acesso direto às bancas (Inep, Cesgranrio, FGV), familiaridade com o estilo real. Contras: ausência de feedback imediato, exige forte autodisciplina, dificuldade em identificar lacunas sem análise externa.

Recomendação prática

Em nossos testes, a melhor estratégia combinou o uso dos simulados do Gemini para aquecimento diário e revisão ativa, com uma rodada semanal completa em provas anteriores do Inep. A IA generativa se mostrou excelente para tirar dúvidas pontuais e praticar questões fora da curva, mas ainda não substitui a precisão do banco de questões oficiais quando o objetivo é simular condições reais de prova.

Limitações e cautelas: o que essa ferramenta não faz (ainda)

Ser honesto sobre as falhas torna o guia mais confiável. Listamos abaixo os pontos de atenção que identificamos.

  • Risco de alucinação: modelos generativos podem inventar alternativas plausíveis em vez de retornar a resposta correta. Ao treinar, sempre confronte o gabarito com uma fonte oficial.
  • Cobertura incompleta: até o momento, a integração Akira + Google cobre melhor Matemática, Linguagens e Ciências Humanas. Itens de Ciências da Natureza que exigem cálculos longos podem ser menos precisos.
  • Correção de redação limitada: o Gemini consegue avaliar estrutura argumentativa e coerência, mas ainda tropeça em critérios subjetivos como "competência 5 — elaboração de proposta de intervenção detalhada".
  • Dependência de conexão estável: como toda ferramenta baseada em nuvem, exige internet rápida. Em regiões com conexão instável, a experiência degrada.
  • Privacidade de dados: prompts com informações pessoais (nome, escola, rotina de estudos) ficam armazenados nos servidores da empresa. Recomendamos não inserir dados sensíveis.

O "porquê" técnico: como a IA do Google gera questões no estilo Enem

Para entender o que está por trás do recurso, vale uma breve explicação técnica. O Gemini é um modelo de linguagem de grande escala (LLM) treinado em trilhões de tokens de texto, incluindo provas anteriores do Enem disponíveis em domínio público. Quando o usuário pede um simulado, o sistema passa por três etapas:

  1. Engenharia de prompt: a Akira Enem provavelmente fornece um prompt de sistema que ensina o modelo a seguir a estrutura de itens da matriz de referência do Inep.
  2. Recuperação aumentada (RAG): o Modo IA busca fontes relevantes na web para fundamentar a resposta — por isso algumas questões vêm acompanhadas de links a portais de educação.
  3. Geração calibrada: o modelo ajusta nível de dificuldade e área do conhecimento conforme parâmetros passados pelo usuário (por exemplo, "nível fácil de Biologia").

O resultado é um conteúdo razoavelmente fiel ao estilo do exame, mas que ainda carece da curadoria humana fina que só uma equipe pedagógica dedicada consegue oferecer.

Tendências: para onde caminha a IA aplicada à preparação acadêmica

Se o padrão atual é a geração de questões sob demanda, o próximo salto provável envolve personalização longitudinal — um agente que acompanha o aluno por meses, identifica padrões de erro e propõe cronogramas de revisão baseados em curvas de esquecimento. Startups como a própria Akira Enem já ensaiam movimentos nessa direção, e gigantes como o Google têm capacidade computacional para tornar isso escalável globalmente.

Outra frente emergente é a integração multimodal: em vez de apenas texto, o usuário poderá enviar foto de uma questão de livro e pedir que a IA transforme o item em formato interativo, ou gravar um áudio simulando apresentação oral para a prova de inglês. Essas funcionalidades já aparecem em estágio experimental em modelos concorrentes e devem chegar ao ecossistema Gemini nos próximos ciclos.

Perguntas frequentes (FAQ)

O simulado do Enem no Gemini é gratuito?

Sim, o recurso está disponível sem custo dentro do plano gratuito do Gemini. Usuários do plano Google One AI Premium têm acesso a modelos mais avançados, como o Gemini 2.0 Pro, que tende a entregar respostas mais refinadas.

Preciso instalar algum aplicativo?

Não necessariamente. O recurso funciona diretamente pelo navegador em gemini.google.com. Aplicativos oficiais estão disponíveis para Android e iOS e oferecem a mesma funcionalidade, com a vantagem de notificações e integração com o sistema.

As questões seguem o mesmo padrão das provas oficiais do Inep?

Em boa parte sim, especialmente nas áreas em que a Akira Enem contribuiu com curadoria. Porém, como toda geração por IA, pode haver inconsistências pontuais. Sempre que possível, confirme o gabarito com fontes oficiais antes de consolidar o aprendizado.

Posso usar o simulado para outras provas, como vestibulares privados?

O foco atual da parceria é o Enem. Para vestibulares como Fuvest, Unicamp, FGV ou Unifesp, é recomendável complementar com plataformas especializadas, já que o estilo e a banca diferem bastante.

Há risco de a ferramenta errar e me prejudicar nos estudos?

Existe, e por isso recomendamos o uso como complemento, não como fonte única. Use o simulado para praticar, identificar padrões e ganhar fluência — mas mantenha materiais oficiais e acompanhamento de professores ou monitores como espinha dorsal da preparação.

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