Introdução: por que um data center na Amazônia virou caso de Justiça

Quando o primeiro data center dedicado a inteligência artificial da Amazônia começou a sair do papel em Belém (PA), poucos imaginaram que o projeto fosse parar no banco dos réus antes mesmo de ligar um único servidor. A movimentação, no entanto, revela uma tensão que está apenas começando no Brasil e no mundo: a expansão da infraestrutura de IA esbarra em territórios ambientalmente sensíveis, comunidades tradicionais e metas climáticas globais. Em um momento em que a capital paraense se prepara para sediar a COP30, a discussão deixa de ser técnica e passa a ser geopolítica.

Este guia foi elaborado para destrinchar o caso do BEL1 com a profundidade que o tema exige. Você vai entender o que é uma "ilha de calor", por que o sistema de refrigeração escolhido pela operadora é decisivo, o que diz a investigação do Ministério Público do Estado do Pará (MPPA), como a Universidade de Cambridge sustenta a tese de impacto térmico e quais comparações internacionais ajudam a calibrar o debate. Ao final, respondemos às perguntas mais comuns sobre o futuro da infraestrutura de IA em regiões tropicais.

Entendendo o caso BEL1 em Belém

O projeto BEL1, tocado pela operadora brasileira Elea Data Centers, prevê aporte inicial de R$ 250 milhões e operação a partir de 2027. Segundo informações reportadas originalmente pelo portal Olhar Digital, a primeira fase terá capacidade de 7,5 megawatts (MW), volume suficiente para alimentar mais de 22,5 mil residências com consumo médio residencial no Brasil.

Por que Belém virou destino de data centers

Três fatores explicam a escolha da capital paraense como ponto de instalação de infraestrutura de IA:

  • Energia hidrelétrica abundante: o Pará é um dos maiores exportadores de eletricidade limpa do país, com matriz fortemente baseada em hidrelétricas da bacia amazônica.
  • Conectividade de cabos submarinos: novos sistemas de fibra óptica que atracam em Fortaleza e Salvador vêm estendendo rotas até o norte, oferecendo latências competitivas para tráfego entre Américas do Sul e Norte.
  • Custo de energia abaixo da média nacional: tarifas industriais no estado costumam ser inferiores às do Sudeste, fator decisivo para um setor cujo principal insumo é eletricidade.

Esses atrativos, contudo, não apagam a principal fragilidade climática da região: temperaturas médias anuais entre 26 °C e 28 °C, com picos de sensação térmica frequentemente superiores a 34 °C. Refrigeração eficiente nesse cenário é um desafio de engenharia bem mais complexo do que em regiões frias ou temperadas.

O que é uma "ilha de calor" e por que incomoda tanto

Ilhas de calor urbanas (Urban Heat Islands, UHI) são áreas onde a temperatura do ar e das superfícies se torna sistematicamente mais alta do que em regiões rurais ou vegetadas próximas. O fenômeno é provocado por uma combinação de pavimentação, ausência de cobertura vegetal, cores escuras que absorvem radiação solar e, principalmente, fontes antropogênicas de calor — como motores, veículos e, cada vez mais, data centers.

O dado que acendeu o alerta

Estudo da Universidade de Cambridge publicado em 2024 estimou que data centers de grande porte podem elevar a temperatura média da superfície em até 2 °C, com picos localizados de até 9,1 °C em condições adversas. A pesquisa modelou diferentes cenários globais e concluiu que, até 2030, a pegada térmica do setor pode afetar áreas equivalentes a todo o território do Reino Unido.

Para regiões tropicais como a Amazônia, esse dado é particularmente sensível: a floresta depende de um equilíbrio térmico estreito para manter seu ciclo hidrológico. Alterações de 2 °C na superfície podem interferir em padrões locais de chuva e estresse hídrico em um bioma que já sofre com secas prolongadas e queimadas.

O detalhe técnico: como o calor é gerado

Todo chip consome energia, e toda energia consumida é convertida em calor. Um servidor típico gasta entre 300 W e 1.200 W; um rack inteiro pode chegar a 30 kW ou mais em ambientes de IA. Para cada watt entregue à computação, entre 0,5 W e 1,5 W adicionais precisam ser extraídos como calor — esse é o "overhead" térmico medido pelo PUE (Power Usage Effectiveness, ou Eficiência de Uso de Energia), métrica padrão da indústria.

Quando esse calor é rejeitado para o ambiente externo, e não aproveitado, o resultado é a elevação localizada de temperatura. Em climas quentes e úmidos, sistemas mecânicos precisam trabalhar ainda mais para resfriar o ar, criando um ciclo que intensifica a ilha de calor.

A investigação do MPPA: o que está em jogo juridicamente

O inquérito civil aberto pelo Ministério Público do Estado do Pará apura dois eixos principais:

  1. Risco de formação de ilhas de calor e impactos térmicos sobre o entorno imediato do empreendimento.
  2. Ausência de consulta prévia, livre e informada com comunidades ribeirinhas e moradores de bairros vizinhos, procedimento previsto na Convenção 169 da OIT e no ordenamento jurídico brasileiro.

Por que a consulta pública importa tanto

A Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho, internalizada no Brasil via Decreto 10.088/2019, garante a povos indígenas e comunidades tradicionais o direito de serem consultados sobre projetos que afetem seus territórios. Trata-se de um instrumento vinculante, não uma formalidade: a jurisprudência do STF e de tribunais internacionais já consolidou que a ausência de consulta pode anular licenças ambientais.

No caso de Belém, a proximidade com áreas de várzea, ilhas e comunidades extrativistas coloca o projeto na zona de aplicação obrigatória da norma. Sem oitiva adequada, o risco jurídico do BEL1 se soma ao risco ambiental.

O que pode acontecer na prática

As consequências variam conforme o desfecho do inquérito e do licenciamento ambiental:

  • Celebração de Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com compromissos mitigatórios, como monitoramento térmico contínuo, plantio compensatório e comitês comunitários.
  • Suspensão ou revogação da licença de operação até que estudos complementares sejam apresentados e aprovados.
  • Ação civil pública com pedido de indenização por danos ambientais e sociais, caso se comprove omissão na fase de planejamento.

Comparativo técnico: como data centers podem ser resfriados

A escolha do método de refrigeração é a variável mais crítica para minimizar o impacto térmico externo. Vamos comparar as principais tecnologias em uso hoje.

1. Refrigeração a ar (air cooling)

Como funciona: ar frio é insuflado nos corredores frios entre racks; o ar quente é extraído e dissipado por chillers ou torres de secagem.
Vantagens: simplicidade operacional, menor consumo de água.
Limitações: desempenho cai em regiões com temperatura e umidade elevadas — exatamente o cenário amazônico. Para IA com GPUs de alta densidade (acima de 50 kW por rack), exige ajustes constantes.

2. Refrigeração líquida direta (direct-to-chip)

Como funciona: placas frias encostam nos processadores e conduzem o calor para um circuito de água ou líquido dielétrico.
Vantagens: até 3x mais eficiente que ar em ambientes quentes.
Limitações: risco de vazamento, custo inicial mais alto, exige redundância hidráulica.

3. Resfriamento por imersão (immersion cooling)

Como funciona: servidores inteiros ficam submersos em fluido dielétrico não condutor.
Vantagens: PUE próximo de 1,05; baixíssimo consumo de água; silêncio operacional.
Limitações: peso elevado (exige reforços estruturais), manutenção mais complexa, fornecedores ainda concentrados.

4. Aproveitamento de calor residual (heat reuse)

Como funciona: o calor rejeitado é capturado e redirecionado para aquecer água, edifícios, estufas ou processos industriais vizinhos.
Vantagens: reduz o impacto térmico externo e gera receita adicional.
Limitações: exige "vizinhos consumidores" próximos; viabilidade econômica depende da densidade urbana local.

No caso do BEL1, a Elea Data Centers informou que adotará sistemas de ar-condicionado. A escolha é conservadora e segura do ponto de vista hídrico, mas, segundo a empresa, estudos térmicos mais aprofundados estão previstos apenas para a fase de 100 MW. Essa postergação da análise detalhada é um dos pontos que mais preocupam técnicos e o próprio MPPA, pois significa que a fase inicial — equivalente ao consumo de mais de 22 mil residências — entra em operação sem modelagem completa de seu impacto local.

Panorama internacional: o que o Brasil pode aprender

Data centers em climas quentes não são novidade global. Existem três casos emblemáticos que servem de benchmark:

  • Singapura: a partir de 2019, o governo proibiu novos data centers até que apresentassem soluções de eficiência energética e uso mínimo de água. O país forçou a adoção de imersão líquida e recuperação de calor.
  • Arizona (EUA):strong> a região concentra megacampi da Microsoft, Google e Meta. Mesmo no deserto, operadores investem em resfriamento adiabático (evaporativo) e em geração solar local para compensar a pegada energética.
  • Noruega e Suécia: aproveitam o frio natural e a hidrelétrica barata para manter PUE abaixo de 1,15. É o modelo oposto ao da Amazônia.

A conclusão é clara: o desafio de instalar data centers em regiões quentes não é intransponível, mas exige decisões tecnológicas de alto nível e governança transparente — exatamente o que está sob escrutínio em Belém.

Por que isso interessa ao leitor comum

Mesmo que você nunca tenha entrado em um data center, esta notícia importa por três razões práticas:

  1. Conta de luz: data centers são grandes consumidores industriais. A forma como são instalados influencia tarifas locais e a matriz energética regional.
  2. Clima local: ilhas de calor afetam saúde pública, especialmente de idosos e crianças. Elevar 2 °C em uma capital que já passa dos 34 °C de sensação térmica não é trivial.
  3. Direitos digitais: a infraestrutura que sustenta IA generativa, streaming, bancos digitais e serviços em nuvem passa por esses galpões. Saber onde e como ela opera é parte da cidadania digital.

Perguntas frequentes (FAQ)

1. Um data center realmente pode alterar o clima de uma região?

Um data center isolado raramente muda o clima regional, mas múltiplas instalações concentradas em uma mesma área podem criar ilhas de calor perceptíveis. O estudo de Cambridge estima elevações médias de até 2 °C na superfície e picos locais de até 9,1 °C em cenários críticos. Em regiões tropicais, esse efeito se soma ao aquecimento global e ao calor urbano já existente.

2. Por que não usar água do rio para resfriar os servidores, como faziam grandes data centers no passado?

O método, chamado water-cooling, ainda é usado em algumas regiões frias e abundantes em água. Em locais quentes e úmidos como a Amazônia, a evaporação rápida reduz a eficiência e aumenta o consumo hídrico. Além disso, há riscos ambientais ligados à descarga de água aquecida de volta em corpos d'água — algo inaceitável em uma bacia hidrográfica tão sensível quanto a amazônica.

3. O que muda para o consumidor final com a chegada de data centers de IA no Brasil?

Em curto prazo, latências menores para serviços de IA hospedados localmente e possível redução de custos para empresas que migram workloads do exterior. No médio prazo, pressão sobre o sistema elétrico e potencialmente sobre tarifas industriais, exigindo planejamento integrado entre Ministério de Minas e Energia, ANEEL e agências ambientais estaduais.

4. O BEL1 pode ser cancelado pelo Ministério Público?

Sim, é possível — embora o caminho mais provável seja a assinatura de um Termo de Ajustamento de Conduta com exigências mitigatórias. Um cancelamento total só ocorreria em caso de irregularidades graves na licença ambiental ou descumprimento reiterado da Convenção 169.

5. Como acompanhar desdobramentos desse caso?

Vale acompanhar publicações do próprio MPPA, do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (IBAMA) e, para contexto, portais especializados como o Olhar Digital, além de newsletters setoriais sobre infraestrutura digital e mudanças climáticas.

Conclusão: o futuro da IA não pode virar o fim da Amazônia

O caso BEL1 é um teste para o Brasil. Mostra se o país consegue combinar expansão digital, direitos de comunidades tradicionais e proteção climática em um mesmo projeto. A chegada de data centers de IA em regiões tropicais é inevitável — a demanda global por processamento não para de crescer. O desafio é garantir que essa expansão venha acompanhada de tecnologia de ponta em refrigeração, governança participativa e licenciamento ambiental sério.

Mais do que uma novela jurídica local, o que está em jogo em Belém é um modelo de desenvolvimento: infraestrutura pode ser implantada com cuidado ou pode virar mais um capítulo de passivos ambientais herdados pelas próximas gerações. A escolha é de hoje.

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