Uma ferramenta de inteligência artificial que cria imagens a partir de mensagens parece simples: basta descrever o que você quer ver. Mas, quando o pedido envolve candidatos, campanhas e eleições, a resposta pode mudar de uma tentativa para outra — e até entre nomes diferentes. Foi o que chamou a atenção de usuários da Meta AI no WhatsApp em um caso relatado pelo portal Globo: a ferramenta teria recusado inicialmente pedidos de imagens de campanha de Lula, mas aceitado alguns pedidos semelhantes relacionados a Flávio Bolsonaro. Em outros testes, porém, também bloqueou imagens de Flávio quando o sobrenome “Bolsonaro” aparecia.
O episódio importa por dois motivos. Primeiro, porque mostra que assistentes de IA podem aplicar regras de segurança de maneira inconsistente ou difícil de entender. Segundo, porque a geração de imagens políticas envolve riscos reais de desinformação, manipulação e confusão sobre o que é uma peça oficial de campanha. A diferença observada não prova, por si só, que a Meta favoreceu um candidato: para chegar a essa conclusão, seria preciso comparar pedidos controlados, repetidos e registrados de forma sistemática.
A seguir, explicamos o que foi relatado, por que respostas diferentes podem acontecer, o que a legislação eleitoral realmente regula e como avaliar imagens políticas geradas por IA sem confundir uma resposta do chatbot com uma decisão oficial ou uma evidência de viés.
O que aconteceu nos testes com a Meta AI no WhatsApp
Segundo o portal Globo, usuários relataram que a Meta AI se recusou a criar determinadas imagens de campanha de Lula, do PT, mas atendeu a pedidos semelhantes envolvendo Flávio Bolsonaro, do PL. O g1 confirmou que o assistente apresentou diferenças nas respostas. A reportagem também observou que, após várias tentativas, a ferramenta chegou a produzir uma imagem com o nome de Lula.
Os testes não apontaram uma regra simples e estável. A Meta AI também teria recusado pedidos relacionados a Flávio quando o sobrenome “Bolsonaro” era incluído. Além disso, por volta das 19h30, o assistente passou a bloquear pedidos sobre os dois políticos, justificando a recusa com uma mensagem de que não poderia criar aquele tipo de conteúdo político.
Esse conjunto de resultados é importante: a ferramenta não parece ter respondido apenas à identidade do candidato. O texto exato do pedido, o momento do teste e outros detalhes da interação podem ter influenciado a resposta. A notícia descreve um comportamento observado em determinado contexto; não demonstra, isoladamente, qual política interna foi aplicada nem por que houve a mudança.
Por que a IA pode aceitar um pedido e recusar outro
O sistema não analisa apenas o nome do candidato
Uma ferramenta de geração de imagens costuma combinar diferentes etapas. Primeiro, um sistema interpreta o texto e identifica elementos como pessoas, temas políticos, pedidos de persuasão ou referências a uma campanha. Em seguida, filtros de segurança podem classificar o pedido. Se ele for permitido, o modelo de imagem tenta produzir o resultado; se for bloqueado, o usuário recebe uma recusa.
Essas etapas podem interpretar de maneira diferente frases que parecem equivalentes para uma pessoa. “Faça um cartaz com o nome de um candidato” pode ser classificado de forma distinta de “crie uma peça eleitoral para apoiar determinado candidato”, mesmo que ambos levem a uma imagem parecida. A presença de sobrenomes, slogans, pedidos de apoio ou referências a uma disputa também pode alterar a classificação.
Filtros automáticos podem errar ou mudar
Os filtros de segurança são sistemas probabilísticos, não uma lista perfeita de todas as frases possíveis. Eles podem bloquear um pedido permitido, deixar passar outro semelhante ou responder de modo diferente após uma atualização. Também é possível que empresas testem mudanças gradualmente, disponibilizando versões distintas para grupos de usuários ou regiões.
Isso não significa que todo resultado diferente seja prova de erro ou de discriminação. Significa que uma recusa isolada, ou uma imagem gerada em uma tentativa, não basta para explicar o funcionamento do sistema. No caso relatado, a mudança nas respostas ao longo do tempo é um motivo para registrar as condições do teste, não para concluir automaticamente que houve preferência política.
O contexto da conversa também pode pesar
Assistentes conversacionais podem considerar mensagens anteriores, instruções adicionais e o contexto da sessão. Uma sequência de tentativas pode ser interpretada de forma diferente de um pedido feito em uma conversa nova. Por isso, comparar dois resultados exige mais do que trocar o nome do candidato: é necessário manter o restante do pedido e as condições tão semelhantes quanto possível.
O que a notícia não permite concluir
- Não comprova favorecimento político: uma diferença de resposta é um sinal que merece investigação, mas não demonstra intenção da empresa ou viés sistemático.
- Não revela toda a regra da Meta AI: uma mensagem de recusa descreve a decisão daquele momento, não necessariamente a política completa do serviço.
- Não garante que o resultado se repetirá: o comportamento pode variar com atualizações, idioma, localização, conta ou formulação do pedido.
- Não transforma a imagem em material oficial: uma imagem produzida por um assistente não é automaticamente autorizada por candidato, partido ou equipe de campanha.
Para testar a hipótese de respostas assimétricas com mais rigor, seria preciso repetir os pedidos em sessões separadas, alternar a ordem dos nomes, preservar a mesma estrutura de texto e guardar capturas de tela com horário e versão do aplicativo. Também seria necessário distinguir entre “o chatbot aceitou o pedido” e “o modelo gerou uma imagem utilizável”: são etapas diferentes.
É proibido criar imagens de candidatos com inteligência artificial?
A afirmação de que a criação de qualquer imagem de candidato por meio de um assistente de IA é proibida é ampla demais. As regras eleitorais brasileiras não devem ser resumidas como uma proibição geral de toda imagem sintética que mencione uma pessoa candidata. A regulamentação do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), incluindo regras sobre propaganda eleitoral e conteúdo gerado ou manipulado por inteligência artificial, trata de situações específicas, como transparência, uso de conteúdo enganoso e manipulação de imagem ou voz.
Em linhas gerais, regras eleitorais recentes exigem que conteúdos sintéticos usados em propaganda sejam identificados de maneira clara e acessível e estabelecem restrições severas a deepfakes — conteúdos falsos ou manipulados que simulam a imagem ou a voz de uma pessoa para favorecer ou prejudicar uma candidatura. A aplicação depende do tipo de material, da finalidade, do contexto e das normas válidas para cada eleição.
Portanto, gerar uma ilustração genérica e divulgar um vídeo falso que faz um candidato parecer dizer algo que nunca disse não são situações equivalentes. Uma peça de campanha também pode envolver outras obrigações, como identificação de quem a produziu ou divulgou. Como as regras podem ser atualizadas e dependem das circunstâncias, quem pretende usar conteúdo político em campanha deve consultar as normas vigentes do TSE e, quando necessário, orientação jurídica especializada.
Também é essencial separar a legislação brasileira das regras privadas da plataforma. A Meta pode bloquear conteúdo por seus próprios termos e políticas, mesmo que a criação ou publicação daquele material não seja automaticamente ilegal. O inverso também é verdadeiro: o fato de uma ferramenta gerar uma imagem não significa que a publicação esteja de acordo com a legislação eleitoral.
Como avaliar uma resposta diferente da Meta AI
Se você quiser entender o que aconteceu no seu próprio WhatsApp, faça um teste documentado, sem tentar contornar os filtros. Recomendamos esse método porque ele ajuda a comparar resultados sem transformar a experiência em uma disputa de tentativas para “enganar” o sistema.
- Confira a versão do aplicativo: abra a loja de aplicativos do celular e verifique se há uma atualização disponível para o WhatsApp. Anote também o aparelho e o sistema operacional usados.
- Abra a conversa com a Meta AI: a aparência pode variar, mas o assistente costuma aparecer como um contato ou conversa identificada pelo nome “Meta AI”, com um ícone próprio. Entre na conversa e observe se há avisos sobre disponibilidade ou uso do recurso.
- Escreva um pedido neutro e claro: não inclua alegações falsas, instruções para imitar a voz de alguém ou elementos que possam induzir o público a acreditar que uma peça foi publicada oficialmente.
- Registre a resposta completa: se houver recusa, salve a mensagem e o horário. Se a ferramenta gerar uma imagem, registre também o texto exato do pedido e se o resultado veio acompanhado de algum aviso.
- Compare pedidos equivalentes: mantenha o mesmo estilo, formato e instruções, alterando apenas o elemento que você quer analisar. Faça as comparações em conversas separadas e evite concluir com base em uma única tentativa.
- Repita em outro momento: se o resultado mudar, anote a diferença. Uma mudança temporal pode indicar atualização, variação do sistema ou instabilidade — mas, sem informações internas da empresa, não revela sozinha a causa.
Na tela, uma recusa pode aparecer como uma mensagem de texto no fluxo da conversa, sem que seja exibido um botão para contestar ou editar a imagem. Quando a geração é aceita, o resultado tende a surgir como uma imagem dentro do chat, possivelmente acompanhado de controles para compartilhar ou salvar. Os rótulos e ícones podem mudar conforme a versão; por isso, não trate a posição de um botão como padrão universal.
Alternativas para criar material visual com mais controle
Se a Meta AI não atender ao pedido — ou se você precisar de uma peça mais precisa — existem alternativas. Nenhuma elimina a necessidade de verificar direitos de uso, identificação de conteúdo sintético e regras eleitorais.
Canva: mais controle sobre o layout
O Canva permite montar uma arte a partir de modelos, textos, formas e imagens. A principal vantagem é o controle sobre cores, tipografia e hierarquia das informações; a desvantagem é que o usuário precisa revisar o conteúdo e a licença dos elementos utilizados. Recursos de IA disponíveis na plataforma também podem ter limites próprios para figuras públicas ou conteúdo político.
Adobe Express: edição e composição visual
O Adobe Express oferece ferramentas de design e edição que podem ajudar a criar peças com aparência organizada sem exigir experiência avançada. É útil para ajustar dimensões e combinar texto com imagens, mas não substitui a verificação de direitos autorais, a revisão factual nem a checagem das regras de propaganda. A disponibilidade de recursos varia de acordo com a conta e o serviço.
Método manual: editor de imagens e material autorizado
Uma alternativa é usar um editor gráfico, inserir texto manualmente e trabalhar apenas com fotografias e logotipos autorizados. Esse método costuma oferecer mais previsibilidade do que pedir a um gerador que escreva nomes dentro de uma imagem, tarefa em que modelos de imagem ainda podem produzir letras deformadas ou incorretas. Em contrapartida, exige mais tempo e cuidado na montagem.
- Escolha um gerador de imagens quando precisar explorar conceitos visuais e o serviço permitir o uso pretendido.
- Prefira um editor de design quando a prioridade for precisão em nomes, datas, cargos e mensagens.
- Use material oficial ou autorizado quando a peça for destinada a uma campanha real e precisar representar pessoas, partidos ou símbolos.
Riscos de compartilhar uma imagem política gerada por IA
O principal risco não é apenas a imagem ficar malfeita. Uma montagem convincente pode ser confundida com material oficial, e uma cena inventada pode circular sem contexto. Mesmo uma imagem claramente ilustrativa pode ganhar uma legenda enganosa quando é republicada em outra rede ou recortada.
- Confusão de autoria: o público pode acreditar que a campanha ou o candidato publicou a peça.
- Informação incorreta: a imagem pode incluir slogans, símbolos, datas ou textos que nunca foram aprovados.
- Problemas de direitos: rostos, marcas, fotografias e elementos gráficos podem ter restrições de uso.
- Falta de transparência: quando houver conteúdo sintético em propaganda, a identificação exigida pelas regras aplicáveis não deve ser omitida.
Antes de publicar, verifique quem produziu a imagem, se as pessoas representadas autorizaram o uso, se a legenda descreve corretamente o que aparece e se o material precisa de identificação como conteúdo gerado ou manipulado. Se a peça puder ser confundida com uma declaração ou ação real de alguém, não a compartilhe sem apurar a origem.
O que esse episódio pode indicar sobre o futuro da IA política
À medida que geradores de texto e imagem chegam a aplicativos de mensagens, a criação de material político fica mais acessível — inclusive para pessoas sem experiência em edição. Isso aumenta a importância de regras compreensíveis, mensagens de recusa consistentes e mecanismos de transparência que expliquem quando um conteúdo foi gerado artificialmente.
Também tende a crescer a pressão para que plataformas publiquem critérios mais claros, corrijam bloqueios indevidos e ofereçam formas de contestação. Por outro lado, filtros muito permissivos podem facilitar a produção de conteúdo enganoso. O desafio técnico e editorial é equilibrar acesso à criação com prevenção de fraude, sem tratar toda menção a um candidato como se fosse automaticamente propaganda ilícita.
O caso relatado pelo Globo é, portanto, um alerta sobre a dificuldade de interpretar respostas de sistemas fechados. A diferença entre duas respostas merece ser registrada e investigada, mas exige evidências comparáveis antes de ser apresentada como prova de favorecimento. Para o usuário, a regra prática é simples: confira o contexto, guarde o registro do teste e não confunda geração automática com autorização legal ou endosso político.
Perguntas frequentes sobre a Meta AI e imagens de campanha
A Meta AI realmente favoreceu um candidato?
O relato mostra diferenças nas respostas a pedidos sobre candidatos, mas não prova favorecimento deliberado. Para avaliar viés, seria necessário repetir testes controlados e considerar variações de texto, horário, versão e contexto da conversa.
Posso pedir à Meta AI uma imagem com o nome de um político?
A ferramenta pode aceitar ou recusar o pedido conforme suas políticas e a interpretação do sistema naquele momento. Mesmo que gere a imagem, isso não significa que ela possa ser usada como propaganda sem cumprir as regras eleitorais, de transparência e de direitos aplicáveis.
Uma imagem criada por IA é automaticamente ilegal?
Não. A legalidade depende do conteúdo, da finalidade, da forma de divulgação e das regras em vigor. Conteúdo sintético identificado e uma falsificação destinada a enganar sobre a imagem ou a voz de alguém são situações diferentes. Consulte as normas atualizadas do TSE antes de usar material em contexto eleitoral.
Por que o mesmo pedido pode receber respostas diferentes?
Filtros automáticos podem interpretar nuances do texto, levar em conta a conversa anterior ou mudar após atualizações. Também pode haver variação entre versões e sessões. Um resultado isolado não permite identificar com certeza qual fator causou a diferença.
Como faço para contestar uma recusa?
As opções disponíveis dependem da versão do WhatsApp e dos recursos oferecidos pela Meta na sua região. Registre a mensagem e consulte os canais de ajuda ou feedback exibidos no aplicativo. Evite reformular o pedido para contornar uma restrição, especialmente se o objetivo envolver imitação, desinformação ou uso eleitoral enganoso.
E você, já testou essa funcionalidade? Conte sua experiência (ou dúvidas) nos comentários! Se este guia te ajudou, compartilhe com alguém que também precisa saber disso. E para receber nossos tutoriais e análises em primeira mão, assine a newsletter do Tech Advisor Brasil.





